DIÁSPORA

ENTRE DOIS AMORES

  Entre dois amores viveram os portugueses desde que começaram a emigrar para as terras desconhecidas, do mundo, no século XV e dá-se no princípio da era do relacionamento de Portugal com as terras do Oriente e, então, ignoradas do Ocidente.

 Por norma os homens viajavam sós, ora ao serviço de El-Rei de Portugal como feitores, marinheiros e soldados. Na esperança de encontrar o “Eldorado”, juntáva-se-lhe  o homem do povo, o considerado “ralé” na época que raramente o achava e terminava por servir reis do Oriente como soldado mercenário.

 Vasco da Gama com a descoberta do caminho marítimo pela rota do Cabo Bojador e, de volta a Lisboa as caravelas com os porões cheios, até convés, de pimenta,canela, sedas, gengibre, pedras preciosas e ainda muitos outros produtos provenientes da China, Índia, Ceilão, Ilhas Moluco e Sudeste Ásiático que antes da conquista de Goa, são comprados ou trocados em Cochim.

 

Foi natural que o homem português voltasse eufórico e deseja, ao Deus dará, com o pensamento afastado dos naufrágios, à pirataria do alto mar, de contrair doenças ou, ainda, receoso do monstro, mitológico, Adamastor a soprar os ventos da sua ira nas águas, tormentosas, da Boa Esperança o conseguia travar de  atingir o Oriente.

 O emigrante português, desde que saía de Lisboa e com sorte de ter atingido o Oriente, principiava  uma vida entre dois amores: um, Portugal, deixado onde pensava regressar um dia rico e famoso, outro era a mulher, oriental, que tinha esposado, constituído família e daí

o nascimento de vários filhos dessa união matrimonial. A Portugal, certamente, nunca mais voltaria se a sorte o não tivesse bafejado. Chegar a Portugal com “cotão” nos bolsos era coisa que não desejaria. A rico, decerto, jamais chegaria.

 Começa,pois, a ser formada a Diáspora, portuguesa no Oriente, perfeita e homogénia onde não existem preconceitos de racismo. Raro foi o português, solteiro, emigrado para o Oriente que não tivesse constituído a sua família tivesse sido, a sua permanência, na Índia,Srilanka, Reinos do Sião (Tailândia) ou Pegú (Birmânia), Malaca,Macau, China ou Japão.

Nomes da nossa literatura, tiveram os seus amores orientais onde aqui, entre tantos, se designam dois: Venceslau de Morais, no Japão e Camilo Pessanha em Macau.

Milhares de outros, homens portugueses, igualmente foram amados por mulheres, tolerantes, amorosas de olhos amendoados. Gente desaparecida e esquecida no tempo e, até sem se saber, ao certo, onde foram sepultados mas ciente, se está, que tiveram um enterro, acompanhado por um missionário do Padroado Português do Oriente e uma cruz, mesmo que tenha sido de pau tosco, foi  espetada na última morada.

Entre dois amores (considero três), vive o jovem na proximidade da casa dos 60, António Cambeta; Homem já da Àsia e onde vive há perto dos 40 anos. O três amores de António Cambeta são: o Alelentejo, Évora onde nasceu, a esposa chinesa em Macau que lhe deu dois filhos e funcionários do Governo e uma senhora tailandesa, que conheceu e por quém se perdeu de amores, há 23 anos e cujo dessa, sincera, ligação amorosa, nasceram 3 formosas raparigas, onde a fisionomia, do rosto, das três beldades lusas/tailandesas têm bem vincados os sinais da latinidade de António Cambeta.

Que não se ascendam as iras da gente púdica, dos castos, dos pregadores dos bons costumes pelo facto de António Cambeta ter vivido, ao longo da sua permanência na Ásia, entre dois amores.                                                                                                                       

Os seus dois filhos nascidos de uma senhora, chinesa, em Macau, o Luis Manuel de 33 anos e o Vicente de 32, contribuem, para a continuação da lusitanidade naquele Território, servindo a Administração; e as suas três “princesas”, tailandesas, está a prepará-las com uma educação primorosa para enfrentarem o futuro.

Rosa Cambeta, de 19 anos, é estudante, forma-se na mais moderna universidade no centro norte da Tailândia,  Susaranee ( nome de um Rei heroi do antigo Sião), a Sunsanee Cambeta, de 9 anos e Catalya Cambeta de 8  anos, aprendem em excelentes escolas para  depois seguirem o caminho da Rosa e com isto contribuir para o desenvolvimento da Tailândia,moderna e preparada para um futuro promissor, económico, dentro do contexto dos países do Sudeste Asiático.

Além do mais  a comunidade lusa/portuguesa vai continuar presente na Tailândia e, com isto manter as raízes da sua identidade, na velha capital Aiútaia (Ayutthaya), na proximidade de atingir os 500 anos de relacionamento, amistoso, entre Portugal e a Tailândia.

 

António Cambeta deixou o seu Alentejo em 1964 e partiu para Macau,como oficial miliciano, inserido, na Companhia de Caçadores 690. Passou à disponibilidade em 1967 e fica por Macau como funcionário de uma companhia de navegação.

Mais tarde ingressa nos quadros dos Serviços da Marinha do território. Foi patrão de várias lanchas de fiscalização no Rio das Pérolas, frequentou cursos, avançados, de processos alfandegários, em Hong Kong e a seu cargo, a chefia, de todos os sectores do departamento aduaneiro de Macau.

Socorreu humanitáriamente e resgatou, em situações aflitivas, centenas de refugiados vietnamitas (boat people).

Foi condecorado, com as medalhas de Dedicação e Mérito Profissional, pelos Governadores Eng. Carlos Melancia e General Rocha Vieira . Durante a longa carreira teve vários louvores e menções honrorosas pelos bons serviços, prestados em Macau, debaixo da administração portuguesa.

António Cambeta, reformado, vive desafogadamente, entre os vários amores: as duas companheiras  asiáticas, os filhos e as filhas que estas lhe ofereceram.

Évora, no imenso Alentejo, é outro seu amor.

Mas pelo que ouvi de António Cambeta me pareceu de quem gosta mais é de Macau e da Tailândia.Évora, de tempos a tempos, para matar saudades.

José Martins  - 22.10.2002

                              

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