DIÁSPORA

ENTRE DOIS AMORES
Por norma os homens viajavam sós,
ora ao serviço de El-Rei de Portugal como feitores, marinheiros e soldados. Na
esperança de encontrar o “Eldorado”, juntáva-se-lhe
o homem do povo, o considerado “ralé” na época que raramente o
achava e terminava por servir reis do Oriente como soldado mercenário.
Vasco
da Gama com a descoberta do caminho marítimo pela rota do Cabo Bojador e, de
volta a Lisboa as caravelas com os porões cheios, até convés, de
pimenta,canela, sedas, gengibre, pedras preciosas e ainda muitos outros produtos
provenientes da China, Índia, Ceilão, Ilhas Moluco e Sudeste Ásiático que
antes da conquista de Goa, são comprados ou trocados em Cochim.

Foi
natural que o homem português voltasse eufórico e deseja, ao Deus dará, com o
pensamento afastado dos naufrágios, à pirataria do alto mar, de contrair doenças
ou, ainda, receoso do monstro, mitológico, Adamastor a soprar os ventos da sua
ira nas águas, tormentosas, da Boa Esperança o conseguia travar de
atingir o Oriente.
O
emigrante português, desde que saía de Lisboa e com sorte de ter atingido o
Oriente, principiava uma vida entre
dois amores: um, Portugal, deixado onde pensava regressar um dia rico e famoso,
outro era a mulher, oriental, que tinha esposado, constituído família e daí
o
nascimento de vários filhos dessa união matrimonial. A Portugal, certamente,
nunca mais voltaria se a sorte o não tivesse bafejado. Chegar a Portugal com
“cotão” nos bolsos era coisa que não desejaria. A rico, decerto, jamais
chegaria.
Começa,pois, a ser formada a Diáspora, portuguesa no Oriente, perfeita e homogénia onde não existem preconceitos de racismo. Raro foi o português, solteiro, emigrado para o Oriente que não tivesse constituído a sua família tivesse sido, a sua permanência, na Índia,Srilanka, Reinos do Sião (Tailândia) ou Pegú (Birmânia), Malaca,Macau, China ou Japão.

Nomes
da nossa literatura, tiveram os seus amores orientais onde aqui, entre tantos,
se designam dois: Venceslau de Morais, no Japão e Camilo Pessanha em Macau.
Milhares
de outros, homens portugueses, igualmente foram amados por mulheres, tolerantes,
amorosas de olhos amendoados. Gente desaparecida e esquecida no tempo e, até
sem se saber, ao certo, onde foram sepultados mas ciente, se está, que tiveram
um enterro, acompanhado por um missionário do Padroado Português do Oriente e
uma cruz, mesmo que tenha sido de pau tosco, foi espetada na última morada.
Entre
dois amores (considero três), vive o jovem na proximidade da casa dos 60, António
Cambeta; Homem já da Àsia e onde vive há perto dos 40 anos. O três amores de
António Cambeta são: o Alelentejo, Évora onde nasceu, a esposa chinesa em
Macau que lhe deu dois filhos e funcionários do Governo e uma senhora
tailandesa, que conheceu e por quém se perdeu de amores, há 23 anos e cujo
dessa, sincera, ligação amorosa, nasceram 3 formosas raparigas, onde a
fisionomia, do rosto, das três beldades lusas/tailandesas têm bem vincados os
sinais da latinidade de António Cambeta.
Que
não se ascendam as iras da gente púdica, dos castos, dos pregadores dos bons
costumes pelo facto de António Cambeta ter vivido, ao longo da sua permanência
na Ásia, entre dois amores.
Os
seus dois filhos nascidos de uma senhora, chinesa, em Macau, o Luis Manuel de 33
anos e o Vicente de 32, contribuem, para a continuação da lusitanidade naquele
Território, servindo a Administração; e as suas três “princesas”,
tailandesas, está a prepará-las com uma educação primorosa para enfrentarem
o futuro.
Rosa
Cambeta, de 19 anos, é estudante, forma-se na mais moderna universidade no
centro norte da Tailândia, Susaranee
( nome de um Rei heroi do antigo Sião), a Sunsanee Cambeta, de 9 anos e Catalya
Cambeta de 8 anos, aprendem em
excelentes escolas para depois
seguirem o caminho da Rosa e com isto contribuir para o desenvolvimento da Tailândia,moderna
e preparada para um futuro promissor, económico, dentro do contexto dos países
do Sudeste Asiático.
Além
do mais a comunidade lusa/portuguesa
vai continuar presente na Tailândia e, com isto manter as raízes da sua
identidade, na velha capital Aiútaia (Ayutthaya), na proximidade de atingir os
500 anos de relacionamento, amistoso, entre Portugal e a Tailândia.

António
Cambeta deixou o seu Alentejo em 1964 e partiu para Macau,como oficial miliciano,
inserido, na Companhia de Caçadores 690. Passou à disponibilidade em 1967 e
fica por Macau como funcionário de uma companhia de navegação.
Mais
tarde ingressa nos quadros dos Serviços da Marinha do território. Foi patrão
de várias lanchas de fiscalização no Rio das Pérolas, frequentou cursos,
avançados, de processos alfandegários, em Hong Kong e a seu cargo, a chefia,
de todos os sectores do departamento aduaneiro de Macau.
Socorreu
humanitáriamente e resgatou, em situações aflitivas, centenas de refugiados
vietnamitas (boat people).
Foi
condecorado, com as medalhas de Dedicação e Mérito Profissional, pelos
Governadores Eng. Carlos Melancia e General Rocha Vieira . Durante a longa
carreira teve vários louvores e menções honrorosas pelos bons serviços,
prestados em Macau, debaixo da administração portuguesa.
António
Cambeta, reformado, vive desafogadamente, entre os vários amores: as duas
companheiras asiáticas, os filhos
e as filhas que estas lhe ofereceram.
Évora,
no imenso Alentejo, é outro seu amor.
Mas
pelo que ouvi de António Cambeta me pareceu de quem gosta mais é de Macau e da
Tailândia.Évora, de tempos a tempos, para matar saudades.
José
Martins - 22.10.2002
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