
PROSA E POEMAS DE MIRA
Casimira Rodrigues
(Mira) nasceu há 46 anos em Vila Nova de Foz Côa é a terceira filha de um
casal que viria a ter mais um e quatro bocas para alimentar e educar. Família
de parcos rendimentos e tradicionalmente, como tantos outros milhares que
emigraram para o Brasil e ex-províncias, ultramarinas, portuguesas em África.
Num fim de uma
tarde, em Lisboa, Mira e toda a família, partem de barco para Moçambique onde
chegam passado 22 dias.

Os verdes anos de
Mira não lhe teria dado a oportunidade de compreender a expressão, do pincel,
levada aos paineis de Almada Negreiros para
a tela o drama da emigração portuguesa, na Gare Marítima da Rocha do Conde de
Óbidos.
Criança como
todas o são êxtasiou-se com o azul do Atlântico e do Índico; viu os peixes,
voadores, aos cardumes, saltarem da água, golfinhos a seguirem a rota do
paquete e, dentro dela a esperança de um dia voltar a Portugal, já uma senhora,
com vestidos de outra fazenda e não a de chita que usou em Foz Côa.
Criou amizades na
viagem, divertiu-se com o carnaval, dentro do paquete levado a efeito pela
tripulação, de quando, na passagem da linha do Equador.
Do convés olhou a
azáfama do cais onde a embarcação fazia escala e descarregava os barris de
vinho, outras mercadorias para abastecerem, os mercados da Madeira,São Tomé,
Angola e Lourenço Marques.
O destino da sua
família era o Distrito de Manica e Sofala, Marromeu e o Pai empregar-se na açucareira
“Sena Sugar Estates”.
Foi menina e moça
feliz e hoje recorda com muitas saudades os grandes momentos e amizades que foi
fazendo ao longo da sua juventude.
A canção
“Kanimambo” de João Maria Tudela era trauteada e cantada por brancos e
pretos quando Mira chegou a Moçambique. A multirracial sociedade da época também
é mencionada por Mira na sua página pessoal http://planeta.clix.pt/inforpauta072/homepage.htm
com a nostalgia,
natural, dos que viveram na pérola do Índico.
Estudou no colégio
de Nossa Senhora da Conceição, em Vila Pery, no planalto do Chimoio, dançou
ao som do conjunto de “Oliveira Muge” e, para matar saudades da família, em
Marromeu, ouvia a canção “Mãe” do Policarpo, guitarrista do melhor
agrupamento musical de Moçambique.
Tinha também os
discos da Natércia Barreto, do Zito e das “Irmãs Muges” de Lourenço
Marques.
Banhou-se nas
praias dos Pinheiros, do Macúti, do Régulo Luis e confraternizou com amigos,
em merendas, nas matas do Savane, pouco mais além se quedava a savana onde o
gado “cafre” bovino pastoreava, onde no lombo de cada rez havia um pássaro
branco “carraceiro”.
Mas a independência
de Moçambique, após o 25 de Abril em Portugal, Mira e a família regressaram a
Portugal
Ficava-lhe para trás
conforme o descreve:
“As paisagens, o
pôr do sol que todos os dias era diferente. As praias com as águas límpidas e
quentes, as areias que nos queimavam os pés, os sorvetes com frutos tropicais....incrível
como havia tanta coisa boa. Havia pessoas de várias raças em perfeita harmonia”.
E noutra passagem
Mira nos leva ao drama da entrega de um país onde a bandeira portuguesa
flutuava há mais de quatro séculos e meio e que já era de muita gente e não
só do grupo a quem foi entregue:
“Via os meus
Pais desesperados, triste e revoltados, os meus amigos partiam e nós iamos
ficando....até que chegou o meu dia.
Foi horrivel... não
queria sair daquela que tinha sido a minha terra, onde fiz muitos amigos, onde
passei tantas fases da minha vida.
Já dentro do avião,
olhava em redor com o rosto lavado em lágrimas, via tudo ficar para trás e, lá
vinha eu sem saber para onde, com a nítida sensação que todos os meus sonhos
tinham parado ali.
Tinha sido
alertada para as grandes dificuldades económicas e então pensei: e o meu curso!...
A partir dali não
sabia mais nada, só sabia que deixei o bom e certamente iria para o mau.
Chegada a
Portugal, retornada e segregada Mira diz-nos:
“.......estava
realmente num sitio desconhecido, muito feio, com muitas casas velhas, com muita
gente velha vestida de preto olhavam como que desconfiadas, com ar de inveja,
reparavam na maneira de vestir, na maneira de falar e até na higiene diária a
que vinha habituada. Eu interrogava-me:
meu Deus onde
estou eu?
Porque acordei?
Onde está o meu
Paraiso?
Quem são estas
pessoas?
Não quero cá
ficar, vou fugir, mas nada fiz..isolada da civilização, sem luz, sem água,
sem casa de banho, sem calor, sem os meus amigos, sem dinheiro e, até sem roupa,
porque até isso os Portugueses nos tiraram.
Passamos muitos
tormentos, atravessamos muitos obstáculos.. foi muito duro.
Tudo tinha
desaparecido como uma nuvem.
A vida continua,
mas com o sonho,sempre,presente”.
O drama de Mira
foi o de centenas de milhares de portugueses que regressarem a Portugal, em
completa miséria depois da “hecatombe” e fatídica da tal (!!!!) exemplar
descolonização que estigmatizou a memória, dos humildes que ainda vivem e que
não cometeram nenhum crime, para o cumprimento da pena sofrida, além o de
serem portugueses.
José
Martins

SONHO
Estava
um dia lindo de verão.
Tentando
fugir à rotina, aos pensamentos que não me deixavam relaxar, procurei o que
realmente me tranquilizava e me fazia rejuvenescer e sair do ênfase.
Dirigi-me
a uma praia que me pareceu o lugar ideal.
O meu
corpo estava quente e os músculos tensos.
Olhei o
mar à minha frente na sua total serenidade, as ondas dispersas e suaves que
deixavam, de regresso ao mar, pedaços de espuma, pela areia, rolando ao sabor
da aragem que fizeram libertar-me de tudo tenso o meu ser trazia.
Entrei
na água refresquei o meu corpo.
Mergulhei
até ao fundo do mar onde os meus olhos vislumbraram o fascínio dos raios do
sol que ao trepassaram a água produziam o efeito, das cores do arco-iris e
bailando em cima da base da areia branca.
Voltei
à superfície e nadei igual a uma sereia.
Meu
corpo começou a arrefecer e os músculos a quedarem-se aliviados.
Sentia-me
bem, parecia-me que tudo aquilo, no meu redor me pertencia.
Deitei-me
na areia e aí o meu olhar fixou-se na água onde uma gaivota, branca, flutuava
em plena liberdade.
Instintivamente
embalei-me na fantasia da minha visão e dentro dela há uma criatura que me
despertou-me a atenção e por mais que tentasse desviar o pensamento do meu
olhar não o conseguia.
De
pronto ele correspondeu à fantasia da minha visão e, lentamente, caminhou
em direcção junto a mim.
Olhos
nos olhos!
...
e ao aproximar-se diz-me:
compreendi-te e, quero dizer-te que és muito bela e, desejo agora convidar-te e
juntos caminharmos até à esplanada do restaurante, um pouco acima
e marginada, pelo pinheiral para conversarmos e nos conhecermos
um pouco...
Sorri,
levantei-me e fui com ele...
Acordes
de música animada, dava-me estar
no lugar certo.
Refrescamo-nos
com uma bebida fresca e ele apercebeu-se que eu desejaria dançar... aproximou-se
cada vez mais de mim, sentimos o contacto, electrizante, dos nossos corpos e
beijou-me, carinhosamente, colando os seus lábios aos meus.
Suavemente
estendeu as minhas mão e fomos, enlevadamente, dançar.
Que
sensação ardente!
Os
nossos corpos submissos, estreitamente ligados deram-me a deliciosa sensação
que levou o meu frágil coração a pulsar com ritmo mais acelerado... ele beija-me,
beija-me...interruptamente e foram estes
os beijos mais deliciosos que jamais havia experimentado.
Beijos
delirantes e apaixonantes!
Os da
minha vida que nunca serão esquecidos.
Senti
um baque forte no meu coração que estremeceu a minha mente.
Abri os
olhos e acordei e tudo havido sido
um sonho.
Ainda
estremunhada, olhei à minha volta e descobri um bilhetinho, em cima da minha
cama, com uma mensagem que dizia:
Ele será
o amor da tua vida, aquele que tanto esperaste.
Ele vai
voltar, beijar-te e dizer-te que te ama muito.
Aguarda!
Mira
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