Sempre que tenha a oportunidade raspo-me da cidade de Banguecoque.

Adoro a liberdade como o cavalo, desfreado, galopa na pradaria.

Assim mais uma vez o meu destino são as terras baixas de Aiutaá (Ayuthaya) e as de Lopburi onde  nesta estação, a das chuvas, o verde tem tem mais lustro e os campos lavrados, à espera da sementeira do arroz são lagos que refletem na água os coqueiros, as bananeiras, os espaços azuis, do céu que as núvens não tardam a tomar-se, negras, carregadas de água e outras flocos alvos de neve que se movimentam, no vazio da atmosfera, pelo sopro do vento.

Saio de Banguecoque precisamente no dia em que o Primeiro Ministro, da Tailândia, Thaksin Shinawatra anunciava ao Povo tailandês que o Banco da Tailândia acabara de liquidar ao Fundo Monetário Internacional a última prestação (1,6 biliões de dólares) do empréstimo contraído de (12, 29 biliões) após a derrapagem económica de que depois de ter atingido a Tailândia se ramificou a outros países, ricos e pobres, da Ásia em princípios de Julho de 1997.

Ao acrescentar ao importante acontecimento o PM prometeu que a taxa do IVA, ir-se-ia, manter, na taxa de 7% e não nos 10% como o “Fundo Monetário Internacional” o teria aconselhado na altura da aquisição do empréstimo.

Bem, não me vou alongar, demasidamente, em matéria económica porque não entendo nada, além do saber administrar os meus escassos bens imobiliários e uns “dinheirinhos” que vou auferindo em troca do meu trabalho que vão dando para viver, com decência, sem me meter (como o diz o povo), em “cavalarias altas”.

Mas o certo é que quando a crise económica se instaurou neste país, o povo não invadiu as ruas e as praças públicas a protestar; a chamar nomes feios ao Primeiro Ministro, de então ou a outros membros do Governo.

Tampouco houve greve alguma.

E muito menos qualquer inflação!

A gasolina ficou no mesmo preço. Flutuam, moderamente, conforme a subida ou baixa, das ramas, no mercado internacional e, por mais incrível que possa parecer a gasolina, sem chumbo, na Tailândia custa, actualmente  um litro 30 cêntimos de um euro.

A Tailândia foi (e continua a ser) um paraíso para o turista estrangeiro que destinou as suas férias para o “País do Sorriso” que com uns escassos dólares/euros as passa de truz!

Saí de Banguecoque ao meio dia de 31 de Julho, conduzindo em velocidade moderada, sem utilizar a moderna autoestrada cujo o utente que opta por  esta, apenas, dispende cerca de uma hora de viagem para atingir Aiutaá.

Contrariando, assim, o hábito da utilização da via rápida, sempre que viajo para Aiutaá. Economizei 100 bahts (2,10 euro) o preço da portagem para um troço de 80 quilómetros.

A estrada normal parte da zona ribeirinha de Banguecoque ( a rua Piatai) atravessa a cidade, passa junto ao aeroporto internacional Dom Muang.

Para além das bermas da estrada, de um lado e do outro, existem  grandes “shopping centers”, hoteis, empresas comerciais e um pouco mais para o interior, áreas habitacionais a darem a clara imagem que a capital que se estendeu para os subúrdios e, caminha a passos largos para a futura, que não tarda, era da modernidade

De Banguecoque até Aiutaá, a distância é de 90 quilómetros, que atingi em cerca de hora e meia pela rodovia, normal, de piso de excelente qualidade e suficientemente larga que permite, sem congestionamento, o escoamento do tráfego de camiões e automóveis em todas as direcções do Norte Este e Oeste do país.

Olhando para além das margens da rodovia e a poucos quilómetros de deixarmos o limite da cidade de Banguecoque e dá lugar à província de Aiutaá não nos passa despercebido o desenvolvimento industrial, ali instalado e, outras novas unidades fabris em construção. 

Nos distritos de Aiutaá e de Saraburi presentemente se encontram em laboração mais de 1000 empresas estabelecidas em “joint venture” formadas com  a comparticipação de  investimentos estrangeiros e locais.

Há cerca de quinze anos Aiutaá era uma área absolutamente rural.

Nas duas margens dos rios Chao Praiá, Lopburi e Pasak ainda se podiam ver casas de madeira de Teca erguidas em cima de estacas.

Moradias, centenárias, que nos davam conta como era o viver dos tailandeses, na altura de quando os portugueses ali viveram desde o princípio do século XVI até 1767 na aldeia dos portugueses e conhecida pelos tailandeses o Bangueportuguete.

A movimentação das pessoas e de bens, em parte é efectuada fluvialmente, pelos rios e canais.

Os mercados flutuantes foram um facto, por séculos, ao longo dos rios e canais.

O transporte dos produtos da terra, mercanciados e não necessários à alimentação das pessoas residentes em Aiutaá seguiam a rota maritima, pelo rio Chao Praiá até à cidade de Banguecoque onde seriam, depois, transbordados para outras embarcações, de maior porte e exportados para os países da Ásia, Japão e Europa.

Hoje alguns desses mercados flutuantes ainda vivem na Tailândia e o mais popular, visitado por centenas de turistas diáriamente é o “Floating Market” a cerca de cem quilómetros de Banguecoque, em direcção ao Sul.

A vida dos siameses foi sempre farta e pacata que depois do amanho dos campos, alagadiços, onde o cultivo da terra se concentra mais no arroz., o tempo que lhes sobrava é passado nos templos onde nestes buscam a espiritualidade adorando o Lorde Buda.

Por isso, em toda a região de Aiutaá, se poderão ver templos, recém-construídos, outros que sobreviveram durante séculos e ainda as ruinas, de alguns, que pereceram no correr do tempo, nos campos de arroz verdejante.

O nascer e o põr do sol deslumbra todos aqueles que têm a oportunidade de os observarem. As paredes, cornijas e cúpulas decoradas com vitrais coloridos com folha de ouro, dos templos,  faiscam raios luminosos, em estrela, quando a luminosidade do sol os atinge que fascinam os  olhares.

Cheguei a Aiutaá  cerca das três da tarde do dia 1 de Agosto.

A cidade, actualmente, tem hoteis para todos os preços e bolsas.

Os conhecidos por três estrelas, custa a diária de cerca de mil bats, com direito ao pequeno almoço (uns vinte euros) construídos na margem do rio Chao Praiá, com vista panorâmica, deslumbrante onde dentro do cenário maravilhoso se conjuga o verde dos campos, o arvoredo, a fluvialidade da movimentação das pessoas  rio Chao Praiá e os templos budista.

Escolhemos um “bungalow” nas traseiras do “Hotel Ayuthaya” que nos permite estacionar o carro junto à porta de entrada e pelo preço de apenas dez euros.

Acomodação confortável, independente e além de todos os requisitos para uma boa estadia junta-se um refrigerador e arcondicionado.

Guiámos pela parte velha da cidade ao fim da tarde.

Centenas de crianças terminavam o dia escolar e nos dá conta que a Tailândia tem uma população jovem e a certeza que o Reino vai continuar a crescer económicamente e, com isto firmar-se como uma grande nação da Ásia.

Em 1976 a população da Tailândia (segundo as estatisticas da revista “Far Eastern Economic Review” situava-se em 41 milhões. Hoje ultrapassou os 62 milhões.

Todo este crescimento demográfico, em parte, se deve à fertilidade dos solos  e abundância de peixe e crustácios nos rios.

 Passamos pelo mercado, junto à margem do Rio Lopburi, e por ali havia de tudo para vender desde aos churrascos a fumegar nos grelhadores  de carne e peixe.

Lojas que tudo vendem cheias de panos, pronto a vestir outras diversas mercadorias no interior e expostas no passeio.

Os rios com poucos barcos a navegar, lá mais para a tarde os de “rabo” grande, accionados por motores, potentes, transportam os mercadores de volta a casa.

No dia seguinte, ainda o dia não despontou regressam, novamente, ao mercado com hortaliças, vegetais, tapioca, batata doce, cocos e peixe para mais uma venda.

A cidade à noite é tranquila.

De quando em quando o sossego é disturbado por algum noctivago que se dirige a casa e rompe o silêncio nocturno com o ruido do motor do veículo de duas rodas ou do automóvel.

Às cinco da manhã estou a pé para observar o romper da aurora e o nascer do sol em Aiutaá.

Dirijo-me para a parte da cidade antiga.

Ruínas a fazer lembrar um passado histórico cuja destruição pelas tropas invasoras do Reino de Pegú, em 1767 se transformaram em glória.

Caminho pelas ruas, dentro do lusco fusco, da velha capital.

Alguns aiutaenses, de ambos os sexos, correm por elas para desentorpecerem as pernas e respirarem a aragem matutina.

Passam por mim e disem “suádi crap” ( o bom dia, a boa tarde, a boa noite e a saudação de todo o momento dos tailandeses). Saudo-os do mesmo modo.

Nos lagos da área, onde crescem flores de lótus de diversas cores, ouvem-se rãs a coaxar que não tardam a silenciarem-se, com o nascer do sol.

A passarada largam o poiso nocturno nos ramos das árvores e voam em todas as direcções.

Sento-me nos tijolos da parede do templo sagrado “Phra Sisamphet”, onde ainda existe a “Sala Vihara” com as ameias portuguesas e ali, estiveram a defender o templo artilheiros lusos.

Espero pelo romper da aurora e o nascer do sol.

Entre as nuvens do nascente surgem os primeiros clarões que transmitem rara beleza ao céu,meio escuro, da manhã.

Pouco depois os raios beijam as torres das ruinas e estas espelham-se no na água do lago. Iluminam-se as paredes do templo  “Viharn Phra Mongkhon Bopit” o único existente na área das ruinas e onde,dentro, está a piramidal estátua dourada do “Buda Mongkhon Bopit”.         

Ao lado do templo Phra Monghkon Bopi estão as ruinas do templo de Sisamphete cujo os raios do sol da manhã banham as partes superiores das pirâmedes.

Saída da área do templo uns 10 metros está a sala de artilharia portuguesa Vihara com as ameias lusas.

Ali está a identificada a presença portuguesa em Aiutaá.

Os portugueses que introduziram as armas de pólvora na velha capital e, treinaram os siameses para as manejaram com precisão.

Sala, é uma frase, que entrou no vocabulário da língua siamesa e deixada pelos portugueses.

Significa um espaço onde as pessoas se sentam e descansam.

Podem, estas  verem-se ao longo das estradas de todo o país, dentro do mesmo estilo a servirem de abrigo e espera das pessoas que aguardam os autocarros.

Algumas delas são providas de livros e jornais para os ocupantes lerem.

Toda a população desde os quatros anos de idade na Tailândia tem uma enorme apetência de ler na sua língua.

Assim se pode observar em todas as livrarias, muitas em todo o país, cheia de tailandeses de todas as idades (mais os jovens) junto das prateleiras abrir livros que depois compram, conforme as suas capacidades económicas.

Obras absolutamente acessíveis a todas as bolsas

As juventude, embora se encontre, alguma, em Banguecoque a optarem, lentamente, pela ocidentalização, é apenas uma minoria.

Os tailandeses amam as suas raizes culturais, a música tradicional e, as estações radiofónicas, emitem sons tailandeses e o mesmo acontece nas emissões dos sete canais de televisão, existentes, em Banguecoque.

Os professores das escolas primárias e secundárias, de todo o país, organizam excursões, apoiadas pelo Governo, levam os seus alunos aos pontos de maior referência dentro do contexto da história desde a  fundação do Reino e, neles lhes transmitem, em pormenor, o que ali foi passado.

Dentro destas várias visitas de que já tivemos a oportunidade de observar ao longo de mais de vinte anos, ainda há dias demos conta de mais uma dessas visitas  ao antigo palácio do Rei Narai em Lopburi a um grupo de alunos do ensino secondário do Sul da Tailândia e futuros guias turísticos.

A nossa viagem relâmpago estava programada, além de Aiutaá, para a cidade de Lopburi. Local carregado de história, onde viveu a lusa/japonesa Maria Pina de Guiomar, casada com o grego Constantino Falcão, que foi personalidade influente na Corte do Rei Narai, no século XVII.

Sobre a história de Lopburi, do Rei Narai, Constantino Falcão e a presença dos franceses e dos Jesuitas das Missões Estrangeiras de Paris e nos iremos, mais uma vez, ocupar em Setembro e de quando da inauguração do novo museu dentro do complexo que compõe o antigo palácio do Rei Narai cognomizado o Grande.

Recomendamos um clique no endereço: www.aquimaria.com/html/forum.html  onde descrevo parte da história da cidade de Lopburi.

Dista de Aiutaá uns 60 quilómetros.

Estrada secundária cuja distância se vence em cerca de uma hora, em velocidade moderada, para que nos seja dada a oportunidade de se observar o cenário campesino para além da estrada.

Campos lavrados à espera da sementeira do arroz.

Garças catam o terreno em procura de vermes.

Tractores manuais vão-os lavrando e preparando-os para receberem as sementes de arroz.

O céu espelha as nuvens na água que cobre os campos fértis.

Outras negras que não tardam a despejar chuva.

Pelo caminho e na encosta de uma montanha vamos encontrar um jardim botânico que não nos permitiu seguir viagem sem paramos o automóvel e o visitar.

Uma autêntica maravilha da natureza preparado pelo homem.

Jardim de estudo a 160 quilómteros da Banguecoque.

Encontramos árvores, tropicais e plantas ornamentais de toda a Tailândia e ficamos extasiados perante as flores de lótus que crescem nos lagos na base da escola botânica ao ar livre.

Em Lopuburi nos quedámos quatro dias no hotel “Lopburi Inn” que recomendamos pelo conforto, hospitalidade e preço.

O nosso objectivo na cidade do centro Este da Tailândia foi o de nos encontrarmo-nos com o Prof. Phutorn Bhumadhorn, uma proeminente figura que tem dedicado a sua vida ao serviço da cultura; da história do antigo Reino do Sião e ao ensino secundário.

Junto a este artigo um outro com o genérico: “Phuthorn Bhumadhorn – O Eremita Cultural”, que recomendo a ler.

José Martins
Agosto 2003
 


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