O MEU DIA DE SÃO VALENTIM

Em Banguecoque

Levantei-me à hora habitual de todas as madrugadas, por volta das quatro. Não estejam por aí a julgar-me que sou um “tipo” afectado pelas insónias, pelos “calotes”, letras protestadas e fugitivo dos credores.

Gosto de me pôr a pé cedo, deitar depois das 9 e de manhãzinha levantar-me fresquinho, como a “penca” na horta orvalhada.

Ainda era de noite, seis da manhã, quando saí de minha casa. Entrei na via principal onde a circulação automóvel era fora do normal: carrinhas cheias de flores amarelas, a cor de flores preferida pela minha musa, orquídias, jasmins, lótus e muita verdura ornamental, tomavam o caminho dos vários mercados espalhados pela cidade de Banguecoque. Pois, a loucura das gentes tailandesas pela flores e pelo dia de São Valentim, leva a que neste dia se comercializem imensas. O dia de S. Valentim não é

considerado, apenas, o “Dia dos Namorados”, mas também, para muitos, o dia da amizade entre as pessoas que se adoram, e que não têm  uma vida em comum. Mas é sem dúvida alguma o dia em que os namorados juram o amor eterno e, muitos, depois de  casar, passam a vida a rabujar.

Sempre fui cumpridor das minhas obrigações profissionais, e antes de seguir com a máquina fotográfica pronta a disparar, para o mercado de flores, coloquei o meu serviço em ordem para o meu, querido chefe e, ainda, tive tempo para dar uma vista de olhos aos matutinos: “The Nation” e o “Bangkok Post”, para saber se o  George Bush (filho) doente e a sofrer da paranóia de fazer mais guerra e menos amor se teria, ao menos, no dia de São Valentim  a coragem de mudar de ideias para no futuro não sofrer a dolorosa experiência da perda de uns 100 mil “américas”, como aconteceu na guerra do Vietname,  no deserto das arábias  por onde andei uns dez anos.    

   

Logo, na primeira página, mesmo a calhar, uma notícia para o dia de São Valentin: “Never too old for love” (Nunca é tarde para amar). Dois velhotes “latinos” (latino também sou, com imenso orgulho), ela com 74 e ele com 86, foram condenados, por um Tribunal italiano, pelo facto de estarem a fazer amor, dentro do automóvel, estacionado num parque.

Mas o mais incrível foi o facto que um grupo de jovens, estudantes, femininas “pingentes lavandiscas” de um raio, terem ficado “agoniadas”, por os dois “bisavózinhos” estarem a relembrar coisas deliciosas e procriadoras do passado;por os dois estarem a testar e instrumentalizar se ainda, aquilo, funcionava. Indecentes curiosas, foram as púdicas e intrometidas meninas e não  menos invejosas dois “velhotes” (com Viagra ou não) estarem a fazer amor dentro do carro (até não era nas “salas verdes” e com cheirinho a ervas do campo)os foram denunciar às autoridades. Logo elas que, estou certo disso, não tardam a efectuar o mesmo, debaixo de alguma uma árvore, perdidas em uma qualquer  via pública e dentro dos seus incontroláveis entusiasmos eróticos partirem, para despesa extra do seu love, o banco automóvel

Voltei a página e dou com a fotografia de um casal europeu, dentro de uma banheira, daquelas redondas, grandes e do estilo “cleopatrizano” cheia de um liquido leitoso e na superfície boiavam pétalas de flores de várias cores, nas mãos de cada um havia uma taça de champanhe e, na borda da banheira a garrafa do espumoso dentro de um balde! Imaginei o par: “ A Cleópatra VII com um dos seus amantes, César ou António”, que eles pela sua formosura e doçura se envolveram em batalhas cleopatranas, para alimentar as

 

suas ambições do poderio egiptoriano. Mas, não sei, se os imaginários César e o António (o da banheira), se será um dos muitos “tipos” de colar branco, que andam a “lixar” meio mundo, movimentam-se habilmente nas “offshores”, a depositarem e branquearem o “papel”, dos pobres da droga, da “bola” e que depois, por infortúnio, mais dia menos dias vão parar com os ossos nos “aljubes” da polícia de investigação e ficam por lá a “enxugarem-se”, depois do banho de sais, eróticos e de champanhe....

Depois, continuando a folhear o jornal, dei com dezenas de mensagens, escritas, dentro de corações, novos e outros, penso que a 125 batidas por minuto e a precisar de renovar artérias. Escrita estava uma mensagem dentro de um coração que chamou atencão: “ My Jasmin Flower I Love You Forever” (Minha Flor de Jasmin para sempre te amo).

Mas antes de partir, fui visitar as minhas vizinhas (para lhes desejar um dia de São Valentim feliz e para que o marido se lembrasse delas, pelo menos nesse mesmo dia  à noite), as que trabalham há anos nos estabelecimentos da “Poesia da Minha Rua” (Captain Bush Lane), mulheres que conheci solteiras e, até lhes ofereci um “presentito” quando casaram.

O ano passado e devido há minha amizade e curiosidade com essas minhas queridas vizinhas, logo pela manhã, fui-lhes perguntar se o marido, esse faltoso nos amores do leito, lhes teria oferecido algo, na noite de São Valentim. A resposta que mais me chocou foi a da minha vizinha de uns 15 anos, Porno: NÃO, DORMIU!

Entrei no meu Honda, de cinco anos, preto, com “aileron” aerodinânico montado na rectaguarda (só para dar nas vistas pois não sou um “patarata” assim tão idoso e o ar do carro de provas de ralies fica-me bem... ajuda-me a que o tempo volte à minha juventude), e dirigi-me para o mercado das rosas do “Sampengue” (nome dado à área

onde vive a comunidade chinesa desde 1767, quando foi fundada a cidade de Banguecoque), que fica na outra margem do meu rio Chao Praiá, em frente do Bairro Português de Santa Cruz. Mercado, com mais dois séculos de existência, onde eram adquiridas as flores para ornamentar os altares da igreja.

             

Distancia-se do meu lugar de trabalho uma meia dúzia de quilómetros e, toda aquele espaço, é para mim muito querido, mesmo sentimentalmente, e quando ali me desloco  sinto na pele o  “ar” dos meus compatriotas portugueses que por ali viveram, mourejaram e ficaram, eternamente, esquecidos, porque até os campos de repouso e das suas memórias foram profanados.

Guiei pelas ruas do Sampengue, olhei as casas velhinhas, de arquitectura colonial portuguesas. Vivem, vivem e estão ali a representar a memória da fundação da cidade de Banguecoque. Comunidade chinesa que respeita os seus velhos, os seus mortos e as sua raizes. O trafego automóvel quedava-se intenso. Havia poluição dado que o chuvisco da manhã tinha tornado o ar pesado.   

O mercado das flores estava ali perto. Avistei-o, mas agora preciso de conseguir lugar para estacionar o Honda. Rodava em moderada velocidade quando perto e debaixo da primeira ponte construída, no final do século XVIII, em cima do meu rio, Chao Praiá, uma carrinha guiada por um vendedor de hortaliças, apressado, deu o beijo do dia de São Valentim no meu carro  

.           Ficou, assim, o meu dia São Valentim, logo pela manhã, estragado. Tudo ficou resolvido e, voltei, mais tarde para tirar fotos.

José Martins – Fevereiro 2003

 


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