
A Ponte do Rio Kwae
Ponte construída em cima do rio Kwae nasce, e formado de pequenas nascentes, nos desfiladeiros das montanhas do sul da Birmânia e desagua, as águas lodosas ou límpidas (dependendo das estações chuvosas ou outonais), no Golfo da Tailândia.
A ponte situa-se na província de Kanchanaburi, a 130 quilómetros de Banguecoque; zona florestal onde dentro do espesso da mata virgem nascem e criam-se elefantes e outros animais selvagens e nos lameiros que marginam o rio, produtos hortículas e agrícolas que abastecem os mercados da capital tailandesa e dos seus arredores.


O rio Kwae de caudal bonançoso atravessa a província de Kanchanaburi onde na corrente flutuam casas cujo nestas vive gente local ou os turistas arrendá-las para uma curta ou longa permanência pela módica quantia de uma dezena de euros, por dia e nelas usufruir umas excelentes férias em cima da serena corrente do rio.
A zona de Kanchanaburi é quieta, verdejante e, pelo meio, a intrincada verdura tropical que cresce espontâneamente onde nesses jardins naturais o nosso olhar se confunde dentro dos mais diversificados contrastes e dons da natureza numa mistura de flores, frutos, árvores que ora dirigem os ramos em direcção horizontal, oblíqua ou os distribuindo, em cascata, para o solo; sons dos pássaros a disturbarem a serenidade do paraiso terreste e a corrente calma do rio Kwae fixa na retina dos nossos olhos o nadar, ziguezagueante, de cardumes de peixes de várias cores.


Kanchanaburi, em 1943 era uma pequena vila do oeste da Tailândia onde a mistura de duas etnias, a siamesa e a chinesa sempre hajam vivido na paz dos anjos, explorando pequenas lojas comerciais; cultivando o fértil solo, pescando, peixe de água doce no rio Kwae que depois de dessecado, pelo rio, chegava aos mercados, flutuantes de Samut Sakorn e Samut Songran.
Os portugueses, também, passaram por ali e, acontece após Portugal e o Reino do Sião ter assinado o primeiro Acordo de Amizade Comércio e Navegação em 1516 na velha capital de Aiutaá.

A pouco mais de uma centena de quilómetros, de Kanchanaburi em direcção ao ocidente estão os “Três Pagodes”, um dos vários limites fronteiriços que demarcam as terras da Tailândia e da Birmânia que foi, com isto, um ponto estratégico, por séculos, de defesa, de infiltrações militares ou encurtar a distância, aos mercadores, entre as águas do Golfo da Tailândia e do mar de Andaman.
As relações entre os reinos do Sião e do Pegú, praticamente desde a fundação, nunca gozaram de harmonia permanente e paz sólida. Querelas provenientes de ciúmes da banda do Pegú, onde entre tantas, uma se destaca o Rei peguano ter desejado elefantes brancos no seu palácio, como os possuia o monarca siamês nos estábulos reais da sua corte em Aiutaá.
A recusa do Rei do Sião de satisfazer o pedido do Rei do Pegú viria a dar aso a uma guerra (meados do século XVI), onde os artilheiros portugueses, servindo os dois reinos, como mercenários; ateiam as mechas das bocas de fogo e disparam: ora contra os exércitos do Pegú ou o do Sião.
A passagem dos portugueses por Kanchanaburi ficou assinalada pelas ameias, quadrangulares, lusas, num monumento, erguido num pequeno jardim e com duas bocas de fogo, com a gravação, em relevo, do “golfinho” o símbolo que bem caracterizou a artilharia portuguesa, durante séculos, na Ásia.


A Ponte do Rio Kwae e o caminho de ferro que a liga, ascendente e descendente, custou a construção o sacrifício de 150 mil vidas durante 1943 a 1945 pelas tropas do exército imperial do Japão, durante a Segunda Guerra Mundial e, no percurso expansionista, japonês na Ásia.
A construção do caminho de ferro e consequentemente a ponte sobre o rio Kwae tinha por parte dos japoneses o objectivo de ligar Singapura à Birmânia por terra. O “Estreito de Malaca” encontrava-se minado de torpedos e infestada de submarinos, das forças britânicas o que dificultava a passagem dos barcos, nipónicos, de guerra para o transporte de equipamentos e abastecimentos logísticos para as suas tropas ocuparem a Birmãnia, colonizada pela Inglaterra.

As populações europeias, impar na sua história, estavam sob uma guerra, terrível, imposta pelo patriotismo, paranóico/xenófobo/racista, de Adolfo Hitler que consegue, demagógicamente, electrizar e hipnotizar multidões, germanas, nos seus “dementes” discursos. O mesmo fenómeno acontecia no Japão. O Imperador Hirohito, guiado pelo pensamento dos seus predecessores, ordena e cumpridas, cegamente as suas ordens para o aniquilamento, ou a escravidão das populações dos países da Ásia que sistemáticamente os seus exércitos foram ocupando.
Para as forças navais japonesas se movimentarem mais à vontade nos mares do Sul China, Golfo da Tailândia,Pacífico e Índico há que aniquilar as forças navais americanas, estacionados, em “Pearl Harbor” (ilhas do Hawaii). Os americanos ainda não estavam inseridos na “Segunda Guerra Mundial”. Em 7 de Novembro de 1941, os aviadores, japoneses, suicídas (kamicases) pilotam aviões, carregados de bombas, contra a frota, naval de guerra,americana, ancorada no porto e docas secas de reparação. Mais de dois mil marinheiros morreram e [JM1]os navios inactivos para navegar. São assim os japoneses os principais responsáveis para que os americanos se envolvam na Segunda Guerra Mundial e as consequências sofridas com o lançamento de bombas atómicas em Hiroshima/ Nagasaki e a rendição do Japao em 2 de Setembro de 1945.

Os japoneses após a vitória sobre os americanos em “Pearl Harbor” lançam um ataque de surpresa a territórios da Ásia e Pacífico. Entretanto um dia, depois, dos “kamikases” (pilotos suicídias) japoneses travarem a movimentação naval americana, no oceano Pacífico, chega a Singapura o vaso de guerra, inglês, de transporte de tropas “Cape Town”. Os japoneses atacam repentinamente Singapura em 8 de Dezembro de 1941. Simultânemante as forças nipónicas atacam os holandeses nas Índias Orientais (Indonésia), as ilhas Filipinas e a Malásia (colonizada pelo Reino Unido) e, a Tailândia. Os ingleses preparam a “Operação Matador” com propósito de travarem os japoneses de ocupar a Tailândia.
Mas a falta de aviões e desconhecimento da estratégia japonesa a operação abortou e a Tailândia foi mesmo ocupada. O japoneses invadem a Tailândia por terra vindos de Battanbang no Cambodja; por ar pelo aeroporto de Don Muang e por mar em sete praias: Huan Hin, Pattani e outras do Golfo da Tailândia. Os tailandeses, nas praias, oferecem-lhe resistência mas é logo entendido pelo Marechal de Campo Phibul Songkran que a melhor forma seria o de fazer cessar-fogo a fim de evitar “banho de sangue” com as consequências de perda de vidas nos seus exércitos e na população civil. É assim assinado um Tratado de Aliança com o Japão em 21 de Dezembro de 1941. O Marechal Pibul em 25 de Janeiro de 1941 declara guerra ao Reino Unido e aos Estados Unidos.


Patriotas tailandeses não aceitam de bons olhos a aliança e M.R. Seni Pramoj, Chefe da Delegação Diplomática da Tailândia em Washington recusa-se a entregar, ao Secretário de Estado dos Estados Unidos, a Carta de declaração de guerra e desde logo foi criado o “Movimento Livre Tai” que contraria a ocupação japonesa no território tailandês.
A ilha de Singapura, era entao, a última fortaleza, no Sudeste Asiático, do “Império Britânico” e rende-se às mãos dos japoneses. O Primeiro Ministro Winston Churchil teria dado ordens que combatessem, até à morte, as tropas do “Commonwealth”(Nações Unidas Britânicas) em Fevereiro de 1942. Os 60 mil soldados das nações unidas britânicas são encurraladas, em Singapura, por 30 mil veteranos japoneses da guerra da China.

Os japoneses além de capturarem e fazerem prisioneiros cinco dezenas de milhares de soldados, tomam posse de 300 locomotivas a vapor; milhares de vagões e centenas de quilómetros de via férrea. Isto era, assim, o fácil acesso por terra de Singapura, à Malásia, ao norte da Tailândia e a Hanoi no Vietname. Faltava a ligação, por terra, da Tailândia com a Birmânia; uma vital alternativa para o abastecimento das suas tropas no território e alimentar as ambições, japonesas, da escalada expansionista, pela via férrea, para que atingissem a Índia, Paquistão até à fronteira do Irão.
Em Banguecoque foi criada a companhia “Caminhos de Ferro Birmânia-Siam” e são utilizados 60.000 mil prisioneiros de guerra das “Nações Unidas Britânicas” e holandeses e 300 mil trabalhadores, asiáticos, en regime de escravatura que nestes os cálculos apontam para 100 mil mortes. Certamente nunca mais se saberá exactamente o número de casualidades, dado que os japoneses, depois da rendição, em 1945, destruiram toda a documentação.

A “Ponte do Rio Kwae” e toda a tragédia ali havida entre os prisioneiros de guerra e trabalhadores asiáticos, deu aso a uma novela do escritor, francês, Pieere Boulle que volta um “best seller” em 1954. Em 1957 transita para o cinema e ganha 7 óscares como filme e fotografia. São interpretes, principais Willian Holden, Jack Hawkins e Alec Guinness.
O filme não foi rodado na Tailândia e embora tenha relatado factos, em imagens, estes são menos crueis do que aqueles que ali foram passados e depois de 59 anos, do holocausto ter terminado, poderão ser visto em dois museus, muito bem reconstruídos em imagens fotográficas da época, veículos (carros e motos) usados pelos japoneses, fardas, hospital e, figuras esqueléticas em gesso que nos dão, quando o visitamos, tempo para a meditarmos em relação aos instintos do ser humano que tanto os pode usar ao serviço do bem do seu irmão, como converter-se em um “animal inteligente” selvagem que desde que a espécie apareceu no mundo há milhares de anos, muitas vezes em nome do bem e da verdade eliminou o seu semelhante.

Placas com os nomes dos prisioneiros que morreram sob o efeitos de
Febres, desintria e outras doenças tropicaes em Kanchanaburi
E dá-nos a convicção disso que no princípio do século XXI as bombas e os canhões ainda não se calaram e, a matança de inocentes, continua a ser um facto corrente.
Temos visitado a Kanchanaburi regularmente e em 19 de Fevereiro de 1994 estivemos ali para assistirmos à reconciliação entre dois soldados: Trevor Dakin, australiano e Nagase Takashi, japonês.

No mesmo dia e de regresso a Banguecoque eu escrevia a peça seguinte para a Agência Lusa Ásia Pacífico em Macau:
JAPONESES NA PONTE DO RIO KAE
Pela primeira vez desde há 50 anos, um prisioneiro das tropas aliadas. Trevor Dakin, australiano, apertou a mão de um soldado japonês, Nagase Takashi, presidente da “Fundação de Paz do Rio Kae”.
Ás 8:30 da manhã, Trevor Dakin, aguardava o grupo, chegado de Tóquio à porta do cemitério de guerra, onde foram colocadas milhares de placas com os nomes de soldados, capturados e feitos prisioneiros na Birmânia, Malásia e Singapura e depois usados para construirem a ponte sobre o rio Kwae e a ligação por terra de Singapura até à Birmânia, antigas colónias britânicas, que sucumbiram aos maus tratos infligidos pelos japoneses.
O evento foi anunciado, com destaque, num jornal de língua inglesa da capital tailandesa, oito dias antes da reunião de hoje.


Existia a expectativa que em Kanchanaburi, a 130 quilómteros de Banguecoque, haveria concentração de antigos prisioneiros e apertos de mão, entre estes e as tropas imperiais, repressoras, japonesas dos anos de 1942 a 1945. Apenas ali se encontrava o cidadão australiano, que desde há seis anos optou por viver em Kanchanaburi, onde foi prisioneiro, depois de ter sido capturado em Singapura e, juntamente com Nagase Takashi preparam o encontro de hoje.
Aparentemente os japoneses que acompanharam o grupo de antigos soldados, japoneses do Japão a Kanchanaburi, esperavam mais do acontecimento, mas este, foi totalmente ignorado pelas autoridades locais, meios diplomáticos acreditados na Tailândia ou de antigos prisioneiros eventualmente residindo no país.
Nagase Takashi, segundo declarou à Lusa, Trevor Dakin, os remorsos que se apoderaram dele, depois de muitos anos já passados, após a repressão, após a repressão sobre 160 mil pessoas, trabalhadores e soldados, tem-se dedicado à causa da reconciliação e, a suas expensas, construiu o “Templo de Paz do Rio Kwae” , junto à ponte da morte.


Trevor Dakin informou ainda: “até hoje, Nagase Takashi, foi o único antigo soldado japonês a quém apertou a mão”.
A cerimónia dentro do cemitério, limitou-se apenas à colocação de um vaso de flores na base da cruz ao fundo do campo de repouso, por Dakin e Takashi.
Na construção da Ponte do Rio Kwae e mais 250 milhas de linha de caminho de ferro através da Tailândia, até à fronteira da Birmânia, terminada em Novembro de 1943, estiveram envolvidos neste projecto: 30.000 ingleses, 18.000 holandeses, 13.000 australianos e 700 americanos, capturados no Sudeste Asiático, Hong Kong, Singapura e ilhas do Pacífico.
A” Ponte do Rio Kwae”, é o símbolo da repressão japonesas sobre as tropas aliadas, durante o período da Segunda Guerra Mundial e ficou, mundialmente, conhecida pela novela, escrita por Pierre Bolles e realizado depois o filme com o mesmo nome”.

José Martins/2004
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