De Volta à Ponte sobre Rio Kuei
(Bridge over the River Kuwai)
Por norma nos anos anteriores e no mês de Novembro dedico uma semana para uma viagem destino. Não fugi à regra e no passado dia de “Todos os Santos” (01.11.05) resolvi abandonar a cidade Banguecoque sem qualquer direcção programada.
O destino virá depois!
Será de quando começar a rolar na estrada da circunvalação que ronda a imensa “Cidade dos Anjos” com os seus 150 qilómetros bem medidos.
Todos os ramais desta via nos levam ao este, norte, oeste e sul. Resolvi, depois de pensar uns escassos minutos, de me dirigir para o oeste e voltar mais uma vez à província de Kanchanaburi.

A distância de uns 133 quilómetros, guiando calmamente, demora cerca de umas duas horas. É o regresso á “Bridge over the River Kwai” (Ponte sobre o Rio Kuei) que pessoas na casa dos 60 anos bem se lembram do filme “The Bridge over the River Kwai”, extraído da novela do soldado inglês, prisioneiro, Pierre Boulle que além da excelente produção, teve uma música de fundo de fácil entrada no ouvido e viria a imortalizar a construção da infamosa ponte e o chamado “Caminho de Ferro da Morte”. A tragédia da ponte e da via férrea da morte aconteceu pelo facto expansionismo imperial japonês na Ásia durante a 2ª Guerra Mundial de 1939 a 1945.

A cidade de Kanchanaburi e todas as terras que a envolvem, sob sua administração, são santuários da natureza onde o remanso da água do rio Kway se conjugam com a imenso jardim, natural, de verdura para além das duas margens até ao sopé das montanhas que confinam com a Birmânia.

Turisticamente não se pode equiparar
Kanchanaburi com outras paragens da Tailândia como sejam as estâncias balneárias
na costa do Mar de Andaman e do Golfo da Tailândia. Existem dois tipos de
turistas: os que viajam para Kanchanaburi; os que vão visitar a ponte e o museu
de guerra; as camadas jovens, estrangeiras, que procuram o local para passarem
umas férias em absoluta tranquilidade com uns poucos euros. Famílias
tailandesas, em grupos, disfrutam ali um excelente fim de semana.

Ao longo da corrente do Rio Kuei, nas duas margens, foram construidas casas de bambú e cobertas de capim seco que flutuam em cima de bidons. De razoável comodidade ao preço de uns cinco euros por dia. Uma experiência agradável pernoitar em cima da água, dentro do silêncio abismal e no despontar da aurora ouvir os galos, madrugadores, a cantar.
Poder-se-á classificar de turismo ribeirinho em vez de rural.

A cidade é progressiva, famosa pelo comércio da pedraria, dado que ali bem perto está a fronteira da Birmânia. Mas uma das principais actividades situa-se no sector agrícola que dado à fertilidade rica dos solos é produzida muita cana de açucar e arroz. As pessoas são afáveis, cordiais perante os estrangeiros e apesar dos caminhos, tortuosos e estreitos da estrada até à margem do rio, numa distância de uns 100 ou pouco mais metros e, estas marginados de espessa verdura as pessoas podem caminhar tranquilamente, durante a noite, que não serão molestadas ou roubadas.

A cidade é uma urbe normal como tantas outras por toda a Tailândia onde as pessoas se movimentam de um lado para outro nas suas lides quotidianas. A zona de turismo ribeirinho dista do centro da cidade cerca de uns dois quilómetros; a ponte e o museu de guerra a pouco mais de três. Desde que visitamos a ponte à ponte já lá vão 25 anos, pouco ou nada mesmo se transformou por ali, além de uns poucos edifícios, comercials, junto há ponte. Entretanto a procura, pelos turistas jovens, como referimos acima, continua crescente.

Há uma meia dúzia de anos existia pouca motivação de turistas japoneses visitarem a “Ponte do Rio Kuei”, o que nos leva a crer, o sentirem na alma as “barbaridades” crueis, praticadas pelos seus nacionais, cujo estas estão documentadas, no museu em fotografias; outros material usado pelos soldados nipónicos. Entretanto, hoje, um quinhão significativo de japonêses, entre os turistas estrangeiros, visita Kanchanaburi.
No dia 25 de Abril de 1995 o japonês Nagase Takasin, ex-soldado nipónico em Kanchanaburi e o australiano Trevor Dakin soldado e prisioneiro de guerra em Kanchanaburi reconciliaram-se. Tentaram e aconteceu a reunião dentro de um cemitério de guerra de um grupo de antigos soldados japoneses e prisioneiros das tropas aliadas. Do Japão veio propositadamente uma professora com um grupo de crianças dos dois sexos e seus alunos. Os pequenos seres humanos, nipónicos, foram portadores de várias mensagens do japão que as exibiram em pequenos cartazes onde essas mensagens vindas de outros condiscípulos de que eram portadores designavam: desculpa e perdão pelos danos causados.

Estive presente, juntamente com outros correspondentes estrangeiros, baseados em Banguecoque e, no meu caso, a experiência terrível de vida, nunca antes experimentada!
Os velhos prisioneiros, ainda vivos, os descendentes a representarem os falecidos não concederam o perdão, pelos sevícias impostas pelos soldados, imperiais, nipónicos e inclusivamente ao povo japonês, apesar do pedido de clemência da jovem professora e das crianças que acompanharam do Japão até Kanchanaburi.

Passado dez anos outra tentativa ainda não foi levada acabo. Talvez nunca com os viventes dado que poucos já devem pertencer ao número dos vivos. Com o tempo, sim o perdão será alcançado mas esquecidas atrocidades, estas, nunca, porque se encontram visíveis para sempre no “Museu de Guerra” onde ao lado mora o “monstro” de ferro suportado em colunas de cimento que mergulham nas profundezas do Rio Kuei.

O museu guerra a uns 50 metros da ponte,dentro não estão só expostos materiais usados pelos japoneses mais ainda das guerras: a 1ª e a 2ª Mundiais e, também, dos conflitos entre a Tailândia e a Birmânia. Na paredes foram colocadas dezenas de cópias de fotografias dos líderes dos fazedores e perdedores de diversas guerras; dos oficiais e soldados japoneses e as dos desgraçados prisioneiros das tropas aliadas, sob a canga, dos nipónicos.
Cá fora foram erguidas estátuas dos homens que marcaram o mundo, no século XIX, com a tirania ou a concretizaçao da paz. Lá está, erguida, a figura sinistra de Adolfo Hitler

Um museu histórico e que nos avivou a memória de quando da 2ª Guerra Mundial a propaganda de guerra (que ali fomos encontrar) similar à nazi e à inglesa que chegava a Portugal e era distribuida gratuitamente pelas “tascas”, barbearias e café com a finalidade de obter simpatizantes e adeptos da causa porque lutava.
Diversas vitrinas mostram as armas utilizadas; os sistemas de comunicações e circulante. Mas o que pode impressionar o visitante é que parte do material usado pelos japoneses na construção da ponte e do caminho de ferro da morte tinha sido capturado na altura que fizeram prisioneiras as tropas aliadas em territórios asiáticos sob a administração da Inglaterra. Ali estão expostas várias motocicletas; um side car; um jeep americano e um carro Morris.

As locomotivas a vapor também de orígem inglesa. Uma cadeira com os apetrechos de médico dentista não conseguimos desvendar a orígem do fabricante mas acreditamos que toda esta aparelhagem tenha sido “pilhada” aos aliados.


O tratamento aos soldados prisioneiros fui o mais cruel que se possa imaginar. Esqueletes andantes; as costelas visiveis a sairem-lhe da caixa torácica e faces esqueléticas que algumas ainda sorriam.
Sorrisos de quê?
A caveira, viva a disparar, talvez, o escárnio para os que os faziam sofrer...
De forma alguma pode passar despercebida, ao visitante, a imagem de quatro soldados cada um com uma perna decepada que confraternizam, com um sorriso, a desgraça com as mãos de ombro-em-ombro. Na altura que visitei o museu poucas pessoas ali tinham entrado. Deparei com uma jovem só que desde logo me saltou à vista ser japonesa. Aproximei-me dela e perguntei-lhe: qual era a sua nacionalidade. Respondeu-me, em inglês sou japonesa. Aflorou-me aos lábios, naquele instante, perguntar-lhe o que sentia dentro de si perante o que estava observando. Conti-me eu não o fazer e guardá-la para depois. Preferi então começar por perguntar-lhe se era a primeira vez que visitava a Tailândia; se tinha ido já a Aiutaá e visitado o campo japonês de nome de Yamada.

Optei pela história de há quatro séculos, do relacionamento dos portugueses com os japoneses no Japão e mais tarde em Aiutaá. Falei-lhe também de Maria Pina de Guiomar uma lusa japonesa que nasceu e viveu em Aiutá e deixou na Tailândia o doce de fios de ovos e conhecido entre os tailandeses “Foi-tongue”. Pouco depois do início da minha introdução e da conversa, entabulada,, amistosa perguntei-lhe, então, o que sentia como japonesa perante o que observava. Recebi dela um gesto de reprovação e, entendi que não desejava falar sobre o passado!

Pedi-lhe autorização de lhe tirar uma foto que acedeu. Não lhe pedi o nome, também não foi preciso, chegaram-me dois dedos de conversa que tive com aquela alma gentil.
Ocorre-me à mente as mulheres que amaram os portugueses no Japão Fernão Mendes Pinto foi amado: << Pelas ruas de Tanagashima, uma caravela com velas de Cristo, percorre as principais ruas. Uma multidão entusiasmada dá largas à alegria. No convês, marinheiros portugueses e o Fernão Mendes Pinto todo garboso na proa. Na ré a sua amada nipónica de longos cabelos, pretos, soltos ao sabor do vento. Pinto partiu em busca de outras terras, prometeu à sua amada – reza a lenda -, já com um filho seu, que voltaria...nunca mais o Fernão Mendes Pinto regressaria a Tenagashima. Foi então que surge: o poema da verdadeira paixão que fascinou duas culturas, a japonesinha, todos os dias em cima de uma rocha olha o orizonte para o além das ondas do mar e virada para o ocidente na esperança de vislumbrar a nau que lhe trouxesse o seu amado Pinto>>.
Amores verdadeiros e de forte paixão foram os de Venceslau de Morais no seu exílio, voluntário, nipónico: a O-Yoné e a Ko-Haru os dois amores de Morais que em vida se amaram e para sempre repousam, os três juntos, em modesto mausoléu, no cemitério da cidade de Tokushima (para saber mais sobre a vida e obra de Venceslau Morais sugiro um clique http://www.aquimaria.com/html/forum.html onde existem dois artigos de minha autoria).
Alguns prisioneiros das forças aliadas, mesmo depois dos maus momentos passados; terem conseguido a liberdade voltaram a Kanchanaburi e constituiram família casando com mulheres tailandesas que lhe deram filhos.
Com isto aliviaram o trauma que lhes foi infligido naquele paraiso terreste que Deus o criou não para torturas mas para os humanos disfrutarem a paz e a tranquilidade.
Um pouco de história e factos
A ponte sobre o Rio Kuei, dá a conhecer às novas gerações, o que foi o expansionismo japonês; a repressão contra os povos asiáticos, praticada pelas tropas fanatizadas do Imperador Hirohito. O Japão aproveitou-se da 2ª Guerra Mundial na Europa para, sistemáticamente , invadir quase todos os países da Ásia. Ocupa a Birmânia, China,Hong Kong, Filipinas, Indonésia, Timor e Singapura.
Macau escapa a essa ocupação.
Embora não existam factos concretos da razão de tal motivo, contam pessoas ainda vivas, que o Japão recuou, pela existência de uma numerosa comunidade, emigrante, nipónica no Brasil e se Macau fosse ocupado pelos japoneses esta seria metida em campos de concentração no Brasil.
Teria sido a intervenção do Prof. Oliveira Salazar, depois de ter sido informado, através do telégrafo, pelo Dr. Pedro Lobo as intenções dos japoneses, junto do Presidente Getúlio Vargas e com isto Macau não foi incluido nos territórios ocupados.
Entretanto Macau é a ilha dos prazeres carnais e das grandes “bebedeiras” dos oficiais japoneses.
O Japão sabia que as potências europeias não lhe poderiam fazer frente na Ásia, depois de ocupados os países da região, todas estas em estado de sub-desenvolvimento que depois seviciaram as populações em geral. Fizeram das mulheres coreanas, chinesas e filipinas objectos de prazer. Foram designadas: “Mulheres de Confortação”. Umas poucas ainda vivas, accionaram o Governo japonês há uns 10 anos e foram-lhe pagas largas indemnizações em dólares americanos.
Entretanto o Imperador Akihito, sucessor e filho de Hirohito, em suas visitas a países da Àsia, apresentou desculpas formais pelos actos infames, praticados pelas tropas, japonesas. Nos discursos em resposta às boas-vindas que recebe dos governantes dos países asiáticos que visita inclue as frases: “jamais voltará acontecer”.
O Caminho de Ferro da Morte e a Ponte do Rio Kuei
Singapura, Malásia e a Birmânia estão nas mãos dos japoneses. O Japão pretende ligar Singapura pelo caminho de ferro à Birmânia. Para atingir o objectivo terá que ser usado o território tailandês. A Tailândia, apostou nos japoneses e, talvez, pela falta de senso e conhecimento da política internacional assinou um Tratado com o Japão e fica aliada.
O Acordo não é bem visto pelos Estados Unidos e a Inglaterra. Banguecoque esteve à mercê de bombardeamentos dos aviões das tropas aliadas. A Birmãnia tem uma extensa costa marítima no mar de Andaman com vários portos naturais para atracar as frotas de guerra japonesas. Estes são na totalidade inúteis. O Estreito de Malaca, ponto obrigatório e indispensável à circulação de navios, os japoneses não podem utilizar esta rota, porque as águas estão ocupadas de submarinos ingleses e infestadas de torpedos.
O Mar do Sul da China, o porto de Singapura e o Golfo da Tailândia estão em poder da Marinha Imperial Japonesa.
A movimentação marítima é totalmente livre, sem perigo para os japoneses. É planeada a construção da via férrea com as tropas prisioneiras, inglesas, australianas e das Nações Unidas aprisionadas em países do Sudeste Asiático e holandesas na Indonésia. Mais de uma centena de milhares de trabalhadores, naturais da região, foram obrigados a trabalhos forçados sob o cano da espingarda.
A Ponte sobre o Rio Kuei, tornou-se conhecida através da novela escrita por Pierre Boulle e pouco depois foi realizado uma grande metragem cujo título é o da ponte.
Os principais actores foram: Alec Guiness e Willian Holden. O filme não é fiel e teve como objectivo o comercial, muito em voga e satisfazer os apetites dos magnatas do cinema americano.
Sri Lanka foi pano de fundo para o filme.
Sendo assim e apesar de as cenas não serem obtidas no local, divulgou ao mundo os horrores da repressão japonesa na construção da ponte e o caminho de ferro da morte.
A linha férrea de um metro de bitola de largura, teve início a construção em Outubro de 1942. Os japoneses desejam a via concluida o rápido “impossível” e dão o nome: “Operação Speedo”. As previsão para a conclusão da operação speedo seriam para Agosto de 1943 o qual não aconteceu mas em Novembro do mesmo ano.
A extensão é de cerca de 360 quilómetros e rasgada entre a floresta vírgem da Birmânia e da Tailândia. O balanço de mortes, depois de concluida situou-se nos números seguintes:
16.000 prisioneiros das forças aliadas; 100.000 trabalhadores oriundos da China, Sul da Índia, Malásia, Indonésia e mistos de sangue europeu e asiático.
Causa das mortes: devido à má nutrição, exaustão e febres tropicais.
Durante as campanhas japonesas no Sudeste Asiático e Pacífico as tropas do Imperador Hirohito falecido há uns 18 anos, estas e toda a população nipónica o achavam como um Deus.
Fanáticamente, além de o adorarem lhe obedeciam cegamente. É com isto lançada a semente do terror e vegeta por toda a Ásia depois de 1942.
Foram feitos prisioneiros: 30.000 soldados ingleses; 18.000 holandeses; 13.000 australianos e 700 americanos.
Estes últimos capturados na região do pacífico.
Esta gente é obrigada a trabalhos forçados rasgando com a força das mãos e da picareta a passagens entre a montanha; pontes de madeira sobre vales e nas margens do rio Kuei.
O campo mais famoso situa-se em Kanchanaburi a 130 quilómetros de Banguecoque.
Local de romagem e de meditação e concluir que o Homem é Santo e Demónio.
Mas para finalizar: as guerras, os prisioneiros, as torturas e a supressão da liberdade ao Homem não paráram!
Tudo isto vai continuar até que o Mundo exista!
Depois das torturas do Rio Kuei outras houveram na Coreia, no Vietname, no Cambodja e mais recentemente no Iraque que não param de continuar!
ASSIM VAI ESTE MUNDO, CRUEL, DE LOBOS E CORDEIROS!
José Martins
Novembro de 2005
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