Férias sem Destino

Os Deuses da Montanha

(Terceira Parte)

 

Uns quilómetros antes de chegarmos a Pitsanulok o meu olhar fixa-se numa alta montanha e vislumbra, meio escondidos entre a copa das árvores dois telhados que me salta desde logo à vista pertenceram a dois templos.

Mais à frente encontrei a estrada, em declive bastante acentuado, meti a mudança de tracção às quatros rodas do Suzuki Vitara e subi por ela acima.

Junto ao meio-dia  o calor era abrasador.

Às narinas chegava-me o perfume exalado do ressoar do capim verde que crescia na berma daquela íngreme rampa.

Ao meio do percurso encontrei um homem aninhado na valeta; um cobertor junto a ele e uma garrafa de plástico com água.

Estranha figura que ali se quedava!

Louco, enfadado dos homens e do mundo?

Parei a viatura mesmo à sua beira esperando que me olhá-se e no propósito de lhe oferecer uma ou duas garrafas de água e dois pacotes bolachas das minhas provisões que sempre me previno quando sigo de viagem para longas distâncias.

O homem da montanha olhou para mim com ar de desprezo, baixou a cabeça e apoiou-a no joelho.

O que iria dentro daquela alma humana solitária para se refugiar na montanha?

Na descida o homem ainda se encontrava no mesmo local e, entretinha-se a apanhar do solo pequenas pedras e a largá-las.

Deixei-o no seu mundo selvagem

No alto daquela montanha vou encontrar dois maravilhosos templos: o primeiro “Wat Radkirihiranyaram”, (o outro me refiro mais à frente) onde duas religiões se encontram a budista e a confucionista.

Ainda se encontrava em construção esperando as esmolas dos peregrinos para o ultimar.

Meia dúzia de crentes estavam por lá a cumprirem as promessas.

Estou, no alto da montanha, é extasiante aquilo que os meus olhos vislumbram. Um templo budista ainda não terminada a construção no topo da montanha. Peregrinos da etnia chinesa colocam colares de flores na divindade a “Deusa Kua Yim”. Seguidamente colocam esmolas num cofre e acendem pauzinhos de incenso que espetam, na cinza, numa larga taça de cobre.

Alguns chegaram vindos de centenas de quilómetros de distância, mesmo da China ou de países do Sudeste Asiático onde se concentram largas comunidades chinesas. 

Na Tailândia a etnia chinesa é composta de cerca de oito milhões de almas e quando os portugueses se instalaram em Aiutaá, pelos anos de 1516, já os chineses ali faziam comércio ou ocupando-se no míster de várias artes.

Por exemplo o porto internacional de Pom Phet, na foz do rio Pasak a desaguar no rio Chao Praiá , que era o pulmão da economia siamesa, os juncos vindos da China ou do Golfo da Tailândia enchiam por completo essa terminal de navegabilidade.

Com o correr dos séculos a etnia chinesa foi-se misturando, matrimonialmente com a siamesa de que resultou uma homogeneidade perfeita e de que viria a resultar o firmamento da economia e o desenvolvimento da Tailândia.

Uma pedra, bruta, de quartzo á espera do cinzel do artista para que a transforme numa estátua e na figura de um santo

Um apóstulo do Lorde Buda já santificado que ficará fora do templo exposto e, voltar em mais um ídolo religioso. Igual a esta santidade há outros milhares fora dos templos por toda a Tailândia quer nas cidades, vilas aldeias. Símbolos cinzelados na pedras ou de cimento. Santidades que ajudam a fortalecer a união dos tailandeses que nunca, a história assim o relata, terem voltado num povo onde a violência tenha tido lugar. Foi, e é certo, o povo siamês ter estado sujeito a várias agressões, do exterior, quer em eras remotas ou mais recentes.

Na antiguidade é o Reino do Pegú que pretende usurpar o território que com determinação os siameses se defendem. Nos finais do século XVII são as ambições, expansionistas de Luis XIV, Rei de França que pretende colonizar a Tailândia com a intervenção das “Missões Estrangeiras de Paris” e apoiadas pelo Vaticano.

 

E, voltando às opiniões de Fernão Mendes Pinto vamos ler o que transmite na sua imortal Obra a “Peregrinação” no capitulo  189:

 

<< O rei, por inclinação de sua natureza, não é nada tirano. As alfândegas de todo o reino, são dedicadas por esmola a certos pagodes, por onde ficam sendo muito baratos os direitos que se pagam nelas, porque como eles não podem ter dinheiro, não pedem aos mercadores mais do que aquilo que eles boamente lhes querem dar, a modo de esmola. .... e continua: < E conquanto seja este que digo, reconhece superioridade por via de vassalagem e tributo ao rei da China, para que com isso possa mandar os seus juncos ao porto de Comhay, onde fazem suas fazendas>>.

 

Finalmente as religiões, entre estas, o budismo que se harmoniza com a, confucionista, cristã, hindú, muçulmana e outras, mais, que livremente na Tailãndia podem ser praticadas sem que a budista, entre em conflitos religiosos já que percentagem é de 95% de crentes, em relação às outras.

 As maravilhas desta montanha não ficam por aqui!

Há outras que ainda não sei quais são!

Outros mistérios de religião da montanha me esperam.

À saida do santuário, algo em língua tailandesa me indica que para lá do lado esquerdo há muito mais para ver.... e, claro que havia!

Ziguezaguando curva e contra-curva no cimo do monte, que lhe chamo santo, deparo com guarda-chuvas, largos e de cor amarela. Cada um abrigava um monge budista do sol ou da chuva que a trovoada lá para o fim da tarde, certamente, iria desabar das nuvens que começavam a formar-se no céu azul.

Para ali tinham seguido e em contacto com a natureza entrarem na meditação por uns dias ou talvez, quem sabe, por semanas.

Monges descalços, fugidos do mundo material, da luxúria, de bens; da hiprocresia e do cinismo que provoca guerras, invejas, ambicionismo que termina, um dia, na derrocada e degradação, apocalíptica do ser humano.

Para estas, bestas humanas, não há altares onde possam figurar ou aos seus pés adoradores de mãos postas e joelhos dobrados!

Seguiu mais um quilómetro em frente e senti-me vestido de monge e solitário no cimo daquela montanha que era já para mim um santuário dentro de um silêncio abismal onde, até, o chilrear dos pássaros se quedava silenciado.

Encravado entre a penedia e no alto daquela montanha majestática, deparo com um templo chinês onde por todos lados havia imagens mitológicas. Umas eram de pessoas e outras com a cabeça de animais. Vim a saber que o templo, chinês/budista era em honrada figura, mitológica, “Sun-Wukong” que representa o macaco. Reza a lenda que que na antiguidade uma pedra na montanha dos pomares e flores, o santuário do Deus da natureza e da energia. Um dia um penedo, engravidou e expeliu um ovo similar a um macaco. As pernas e os braços do macaco que representam os quatros cantos do mundo. O macaco vem à vida e começa a saltar de um lado para outro para se divertir. Um macaco folião, travesso, egoista e desordeiro. É, depois intronizado como o Rei dos Macacos. Depois de rei o macaco volta mesquinho, inquietante com o seu futuro.  Um dia a sua vida de monarca é absolutamente modificada e vive dentro do seu pensamento o medo da morte.

Os chineses acreditam na lenda e o adorar o, ou levar esmolas ao templo “Sun-Wukong” (o Rei dos Macacos), que existe por toda a China e, por todos os núcleos, no mundo, onde vivem os chineses é um dever sagrado.

Mas os templos em honra do Rei Macaco, além do espaço de adoração está direccionado para o bem comum. Um destes bens é a recolha piedosa de corpos humanos vítimas de acidentes ou catástofres naturais. Estas organizações religiosas têm as suas fundações que são sustentadas através de esmolas ou dávidas, mesmo doações de gente abastada. Fundações que funcionam 24 horas por dia, tem as suas “carrinhas” próprias, pessoal contratado que a qualquer hora do dia ou da noite, em cooperação com as autoridades, se deslocam a alta velocidade para os locais dos acidentes ou tragédias naturais para desencarcerar as vitimas, ainda com vida (com aparelhagem moderna oferecida) da amálga da chapa das viaturas e recolher os corpos mortos e transportá-los para o lugar devido.

Estas fundações tiveram um papel de grande relevo na tragédia do “maremoto” que assolou as praias do sul da Tailândia na manhã de 26 de Dezembro do ano passado.

Observamos as fotografias dessas tragédia, expostas no templo, que não publicamos por uma questão de ética e não ferir a sensibildade das pessoas que as podessem vir a ver na hipótese de neste artigo ser inseridas.       

Abandono o monte de  santidades e sigo a minha viagen. Outra surpreza me aguardava: imagens, gigantes, de Santidade o Lorde Buda erigida no no vale para lá da montanha santa.

José Martins

(A seguir a última e quarta partes)

  

 

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