
Férias sem Destino
(Segunda parte)
Férias que me agrada passá-la em extrema solidão!
Gosto de me enfronhar em caminhos e atalhos e de perto observar a vida das gentes dos meios rurais.
Olhar os montes vales e planícies de um verde que me fascina.
Os lençois de água que cobrem a terras onde os rebentos, transplantados, de arroz emergem em procura da luz do sol cujo o calor os fará fertilizar abundantemente.
Onze de Julho pelas 7 horas da manhã estou na recepção do hotel “Lopburi Inn” a satisfazer o pagamento de acomodação de três dias.

Hotel que nesta simpática cidade me hospedo há uma dúzia de anos.
Quando parti disse à bela recepcionista um: até sempre!
Recebi em troca um amistoso sorriso que só na Tailândia se encontra.
Em Lopburi e nos arredores concentram-se a maior parte das Forças Armadas, terrestes, aquarteladas e bairros onde os oficiais residem.
Ponto estratégico para que em qualquer altura possam chegar às fronteiras com a Birmânia, Cambodja e Laos.
A cidade é limpa, ampla cercada por altas montanhas pelo lado norte/leste.
Agricultura é vasta com a produção de milho, girassol, arroz e frutas tropicais.
A uns 18 quilómteros, para o sul/leste e em direcção a Saraburi, está o templo budista “Pra Phutthabat”, um dos mais visitados pelos peregrinos budistas, sejam estes tailandeses ou de outro países.

Acreditam os que alimentam o espirito com a fé budista que por ali passou o Lorde Buda pelas peugadas encontradas e conservadas.
Com interesse e a não perder o palácio do Rei Narai, vários museus que ali se encontram são históricos e etnógrafos que relatam a vida dos tailandeses desde os primórdios; as ruinas do palácio de Constantino Falcão, casado com a lusa/japonesa Maria Guiomar.
No dia anterior da partida para Pitsanulok, num bloco de papel tracei o meu plano de viagem; o número das estradas que iria percorrer e as localidades por onde iria passar.
O trajecto é entre os meios rurais e há que ter a cautela de se viajar para a direccção certa para que, sem conta se dar, estar-se a rodar para sitio errado ou de volta ao ponto de partida.

Poucas pessoas se expressam em inglês, entretanto ao longo da estradas vamos encontrar paineis na língua local e inglesa que nos informam o caminho a seguir.
A bússula, colocada, no mostrador da viatura é aparelho indispensável e claro, também, um bom mapa de estradas que se encontra à venda em qualquer supermercado da Tailândia em bilingue.
As estradas, mesmo as secundárias, são de piso excelentes onde raramente se encontra um buraco que nos faça a ter cautelas e a condução em perigo de acidente.

Pode conduzir-se à velocidade de 100 quilómteros com toda a segurança.
No percurso encontram-se vários auto-stops da polícia e raramente os agentes de autoridades fazem parar um estrangeiro; saudam-no à sua passagem mandando-o seguir o seu caminho.
A manhã apresentava-se radiosa de céu limpída que convidava a olhar a beleza dos campos.
De Lopburi a Pitsanulok são cerca de uns 300 quilómteros percorridos por estradas pouco movimentadas.
Fernão Mendes Pinto andou pelos caminhos que eu seguia e aconteceu pouco depois de ter desembarcado no Reino do Sião.
Vamos assim descrever aquilo que nos conta no capitulo 181 da “Peregrinação”:
<<….como então era já chegada a monção da China, as três naus se partiram para o Chinchéu (não sabemos a localidade no Sião), sem aí na terra ficarem mais portugueses que só dois, que um junco de Patane (sul da Tailândia), se foram com as suas fazendas para Sião, em companhia dos quais me foi forçoso ir eu também.>>
Pinto antes, de chegar ao Sião, passou por imensas agruras, tinha sido vendido mais uma vez em Cherbon a um mercador da Ilha de Celebes.
Relata, que o seu patrão lhe deu bom trato, assim como aos outros seis portugueses.
Ao fim de 26 dias o negociante acaba por dispensar Pinto e os outros seus colegas e são mais uma vez vendidos ao Rei de Calapa por 18 mil reis.
Este monarca de carácter magnânimo deu total liberdade de partirem para destino que preferissem e optaram os portugueses, aventureiros, escolherem o Porto de Sunda.(julgamos na Birmânia).

Ali estavam, ancoradas três naus portuguesas e como capitão Jerónimo Gomes Sarmento que lhes deu toda a hospitalidade e agasalhos.
A frota do Sarmento partiu para a China e deixa os portugueses à suas sortes.
Pinto chegou ao Sião em 1542.
Um núcleo luso/tailandesa já se encontrava instalado no Bang Portuguet (aldeia dos portugueses em Aiutaá), cujos residentes recebem os sete patricios lusos e os integra na comunidade.
As intenções de Pinto e dos outros seus colegas não são as de se fixaram pelo Sião, mas sim esperar pela monção dos Mares do Sul da China e seguirem para o Japão. Pinto estava (aliás sempre assim andou) de moeda muito mal e dois portugueses, companheiros de viagem lhe emprestaram 100 cruzados o que tudo indica para pagar a viajem para o Japão.

Um Pinto aventureiro!
Um Pinto que vive o seu dia-a-dia no desenrascanço que tudo aceita, para salvar a sua pele.
Pouco se importa e aceita abnegadamente hoje ter sido feito prisioneiro; vendido como escravo; voltar à liberdade e associar-se ao António de Faria e ser pirata nos Mares do Sul da China, Golfo do Sião da embocadura do rio Mekong até Phnom Penh no Cambodja.
Depois de tantas glórias do António de Faria que Pinto admira e narra com entusiasmo as suas aventuras de pirataria, um miserável naufrágio colocou Pinto fora da piratagem; consegue salvar a pele e o seu heroi Faria desaparece.
<< Logo que o dia foi de todo claro, e descobrindo já todo o mar não vimos António de Faria, acabámos todos de pasmar, de maneira que nenhum de nós teve mais acordo para nada. E continuando neste trabalho e agonia até quase às dez horas, com tanto medo e desventura quando me não meios alagados nos foram os mares rolando até uma ponta de pedras que estavam adiante, na qual, em chegando, como o rolo do mar nos fizemos logo em pedaços, e pegados todos uns aos outros, com grande grita de <<Senhor Deus, mesericórdia>>, nos salvámos, dos vinte e cinco portugueses que éramos, catorze sómente, e os onze ficaram ali afogados com mais dezoite moços cristãos e sete chins marinheiros, e esta desventura sucedeu uma segunda-feira, cinco do m~es de Agosto, do ano de 1542, pelo qual Nosso Senhor seja louvado para sempre.>>

Em Aiutaá corre a notícia que o Rei do Sião estava com problemas no norte pelo facto Rei de Chimay (Chiang Mai) , federado com os timocouhós, laicianos e guéus que se tinha senhoriado das terras acima de Capimper (Kamphaeng Phet) e Passiloco (Pitsanulok); cercado a cidade de Quitirão com 30 mil soldados e assassinado o oiá (chefe) de Kamphaeng phet. O Rei de Aiutaá ordena que um pregoeiros transmitam a todos os siameses e estrangeiros:
<<….que todo o homem que por aleijão ou velhice, não tivesse escusa de ir com ele a esta guerra, se fizesse prestes, em termo de doze dias que por isso lhe dava de espaço sómente, sob pena de morrer queimado com infâmia perpétua a todos os seus descendentes, e fora estas penas, pós outras muito graves, tão espantosas e medonhas de ouvir que a gente tremia de medo. E aos estrangeiros de qualquer nação que fossem, que estivessem em sua terra, não escusava também desta pena, ou se fossem embora do seu reino em termo de três dias, de maneira que todos andavam como pasmados sem se saberem dar a conselho a conselho, nem determinar-se no que deviam fazer; e aos portugueses, a quem sempre nesta terra se teve mais respeito, mando rogar pelo combracalão, governador do reino, que voluntáriamente, por quem eles eram, o quisessem acompanhar nesta jornada, porque desejava muito lhes entregar a guarda de sua pessoa, por ter reconhecido neles que eram mais para isso que todos os outros. Assim que eficácia deste recado que vinha acompanhado de muitas e largas promessas, e de esperanças de grandes pagas, mercês, e honras e sobretudo de dar licença para se fazerem igrejas no seu reino, nos obrigou de tal maneira que, de cento e trinta portugueses que então aí estávamos, cento e vinte aceitámos ir com ele.>>

Começa assim a sua permanência e aventura de Pinto no Reino do Sião e, vai dar conta com todo o rigor, não só dos lugares por onde andou que transmite os nomes com toda a fidelidade; os costumes dos siameses, a fauna e a flora do reino.
Estou, portanto, de Lopburi a seguir para Pitsanulok e dali para Sukhothai e, daqui voltando para o sul estou e Kampheang Phet e lugares por onde Pinto serviu o Rei do Sião.
Pitsanulok é uma cidade típica e similar a outras dezenas que existem em toda a Tailândia.

A população residente vive do comércio que abastece os agricultores da região que ali se vão abastecer ou mercanciar produtos, entre estes o mais abundante é o arroz.
Há uma meia dúzia de anos o Governo da Tailândia fundou a Universidade de Naresuan frequentada por milhares de jovens da região e com facilidades de residirem e dormirem na instituição de ensino superior.
Pitsanulok foi palco de grandes batalhas, ainda depois de Pinto ali ter passado, devido às rivalidades entre o reino de Pegú e o do Sião, que continuavam a ser um feudo e distingue-se pelos actos de heroismo o Rei Naresuan o Grande que reina de 1590 a 1605.
Tem interesse turístico e pode chegar-se a Pitsanulok de autocarro ou de comboio. Hoteis de acomodação razoável e para vários preços de 500 a 1000 bahts (10 e 20 euros).
A cidade tem transportes de três rodas que os motoristas/guias levam aos lugares certos a visitar pelos turistas e a baixos preços que podem ser discutidos antes de iniciar o roteiro. Durante as horas de trabalho a cidade tem intenso movimento mas depois das 8 da noite o sossego é absoluto.
A cidade é segura e pode caminhar-se durante a noite pelas ruas sem se ser perturbado ou ter a surpreza de um mau encontro.
Jose Martins
(A seguir templos na montanha)
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