FÉRIAS SEM DESTINO

(Lopburi)

 Nada melhor do que confortar-me a alma e corpo que as minhas férias anuais!

Na manhã de  8 Julho pouco depois das 5 da manhã saí de casa ao volante do jeep Suzuki Vitara.

Como bagagem um saco com meia dúzia de peças de roupa; a máquina fotográfica, digital, Nikon D70; outros acessórios da mesma e o gravador para armazenar as imagens em CD rom.

As novas tecnologias, digitais, oferecem-nos a vantagem de não se utilizar o sistema, já obsoleto, de aquirir filmes, mandá-los depois revelar e, no caso de não serem slides passá-los para a impressão no papel.

Atestei o depósito de combustível do meu companheiro de viagem.

Este ano, dado ao aumento, galopante, das ramas de petróleo, me custou mais uns 70% do que o dispendido o ano passado.

Subida de preços que não é devido à escassez das ramas de petróleo mas sim pelo facto de outros interesses que desconheço quais sejam.

No início da minha viagem atravessei a auto-estrada ao sul oeste de Banguecoque.

O sol começava a despontar no horizonte.

Cenário de rara beleza cujo vermelho misturado com os flocos de núvens dispersos na atmosfera apresentava um quadro, celestial, digno de ser levado à tela pelo pincel de um pintor.  

Estacionei o Vitara em lugar seguro na berma da auto-estrada e não resisti de bater a minha primeira chapa, fotográfica, no começo das minhas férias.

A cidade despertava e ruas a ficarem lotadas de carros, autocarros, tuke-tukes, motoretas e pessoas caminhando em destino aos seus locais de trabalho, universidades e escolas.

As gentes da capital da Tailândia são madrugadoras.

Das 7 até à 10 da manhã o trafego das ruas volta intenso.

O mesmo acontece depois das 5 da tarde quando a maior parte das lojas comercais e escritórios encerram.

Há uns 15 anos atrás a população da cidade concentrava-se, praticamento, no centro.

Os arrabaldes eram destinados à instalação de pequenas indústrias, à agricultura que servia, depois, para abastecer os mercados da cidade com vegetais e outros productos da terra.

A cidade cresceu a partir de 1990. Os bairros de casas térreas dispersos pela cidade os terrenos foram adquiridos e neles, depois, construídos grandes torres de cimento para dar lugar a hoteis,  escritórios e apartamentos de luxo..

A quietude da vida dos tailandeses e a sua vivência tradicional, de anos e mais anos  é assim perturbada indo com isto viver para os arredores de Banguecoque.

Terrenos onde cresciam coqueiros, bananeiras, papaieiras e arrozais são edificados bairros de casas para todos os preços e bolsas.

Pagamentos a longo prazo que em vários casos podem ir aos 30 ou mais anos com juros baixissímos.

Banguecoque que nos é familiar e por opção a minha residência há 25 anos era uma cidade onde afluência de turistas era vaga.

Actualmente a Tailândia recebe milhões, anualmente, de visitantes quer da Europa, América e de países da Ásia dado que as populações, devido ao desenvolvimento, crescente, se identificam económicamente

A Sukhumvit Road, situada no coração de Banguecoque, as torres de cimento quase não despegam umas das outras onde em 1978 bati chapas fotográficas com pano de fundo  a vista de coqueiros e o vermelhão do sol a esconder-se no horizonte.

Havia por ali, ainda hortas e os edifícios que não subiam a mais de uns três pisos. Progresso que não mais pára!

No seguimento da minha viagem de férias sem destino, já fora de Banguecoque, ocorre-me à mente: seguir parte dos caminhos do Fernão Mendes Pinto desde Aiutaá até ao centro norte do antigo Reino do Sião. Pinto que não me canso e justamente, de o afirmar ter sido o viajante, estrangeiro e português que melhor descreveu a Tailândia.

Desde que a sua Obra a “Peregrinação” foi publicada, a primeira edição em 1614 e, seria ainda durante o século XVII publicada em dezanove edições: seis em castelhano, quatro inglesas, cinco francesas e quatro holandesas!

Um recorde literário para a época e a “Peregrinação” de Pinto transmite os primeiros e seguros conhecimentos à Europa como era o médio e o extremo oriente.

São fantásticas as suas histórias que poucos, numa Europa já velha e decadente no século XVI, se acreditam naquilo que viu e descreve.

A memória de Pinto é ferida depois da publicação, em 1614  (31 anos depois de ter partido para o outro mundo), da “Peregrinação com os apelidos de mentiroso, charlatão e aldrabão: “Fernão, Mentes? Minto”.

Mas num Portugal do século XVI, iliterato, onde os portugueses viviam em modos de tacanhez e escárnio, constante, juntando-se-lhes o analfabetismo seria impensável, mesmo aqueles que sabiam ler meia dúzia de letras se acreditarem nas histórias, fantásticas, narradas por Pinto na sua genial Obra a “Peregrinação”

As histórias de Pinto eram, pouco mais que as dos “lobisomen” que apenas existiam na imaginação das pessoas e para as amedrontar.

Passado uma hora de viagem estamos em Aiutaá e onde Fernão Mendes Pinto iniciou a suas aventuras no Reino do Sião como soldado da fortuna.

Não ficamos o primeiro dia por ali e projectamos a paragem para o regresso das terras do norte.

Dirigimo-nos para a cidade de Lopburi a 160 quilómetros de Banguecoque.

Pinto na “Peregrinação” não se refere a esta localidade onde duas religiões se encontram e se caldeiam: o budismo e a hindu.

É conhecida pela cidade dos macacos. Uma legião destes animais exameiam as ruinas  do templo khmer “Prang Sam Yod”, situado na parte antiga da cidade.

A escassos metros e com a linha férrea a dividir está  o santuário “Kala”, templo budista onde por obrigatoriedade os tailandeses antes de cumprirem as suas obrigações religiosas, nos templos da região onde se irão quedar, em meditação, uns vinte a vinte cinco dias  vão ali orar e prestar homenagem a sua Santidade o Lorde Buda.

Fora da capela está um montão de pedras, geométricamente colocadas umas em cima de outras que pertenceram a um templo hindu Khmer cuja data a construção vem do século VI da era de Cristo.

Os macacos, que ainda hoje ali vivem e estimados pelas pessoas são de data imemorial e uma parte da civilização dos Khmers.

Estes animais surgem, em relevo, nos linteis de todos os templos khmers, em ruinas ou conservadas espalhados pelo antigo império Khmer que se estende pela região do este da Tailândia chamado o Esarn e o Cambodja.

Vivem estes animais em comunidade e, fartos de comida.

As populações de Lopburi orgulham-se dos seus macacos e todos os dias em redor do templo “Kala” larga quantidade de comida, bananas e vegetais é ali deixada.

Em Lopburi a presença portuguesa, nos seculos XVI e XVII, não teve significado e, não reza a história factos relativos.

Lopburi esteve sob controlo dos Khmers até ao século XIII  quando os tais tomam o poder e a administração da cidade e da região.

O Rei Narai intronizado em 1656, nutre larga simpatia por Lopburi e, dali do palácio que mandou construir rege os destinos do seu Reino do Sião.

Aiutaá está ligada por uma via fluvial a Lopburi que facilita ao Rei Narai deslocar a sua corte de uma capital para outra.

Maria de Guiomar, lusa/japonesa viveu ali e sofreu os rigores da intriga, política, por ter casado com grego Constantino Falcão e, este aliciado pelos franceses, não escapou ao fio da espada que o degolou pelo crime de servir dois Reis: o do Sião e o de França.

Entretanto Maria de Guiomar, depois de viúva, sua vida foi poupada e dado os seus dotes da sabedoria culinária fica a chefe de cosinha do palácio real.

Hoje, o popular, “Foi Tongue”, (fio de ovos) e doce de excelência em toda a Tailândia foi deixada a receita por Maria Guiomar.

Lopburi é uma pequena cidade onde me dá gosto ali permanecer, pelo menos uns três dias e fazer os projectos das minhas viagens pelas estradas e caminhos desta Tailandia que cada vez mais me fascina.

País que não me canso de o afirmar de gente boa, hospitaleira e cativante quando se sorriem para mim!

Sorrisos que não são só das gentes de Banguecoque mas, também, dos meios rurais onde desde há vários anos percorro sem destino pequenas estradas e picadas em procura de mais conhecimentos sobre este maravilhoso país e do seu povo.

Este povo é igual de norte ao sul!

As casas tenham sido construídas de madeira ou cimento têm o seu estilo próprio. As de cimento fogem, não muito ao estilo tradicional, mas de madeira esta conservam a construção  raízes de seculares.

Entre as gentes da Tailândia  já sou um português de pele tisnada que desde logo observam ser um residente há muitos anos!

Em Lopburi, pela manhã do dia 9 de Julho, percorro a pé as ruas e vielas da antiga cidade. Pequenas lojas e mercados pejadas de tudo!

Gente que se movimenta a pé ou em transportes que não foram vistoriados para circular. Burocracias para quê?

Se estas só entravam o progresso de um pais!

E na Tailândia o desenvolvimento segue bem e de óptima saúde!

José Martins

(A seguir de Lopburi a Pitsanulok)

  

 

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