Férias de 2004

Férias sem itinerário e projecto delineado.

Têm assim acontecido desde há uns três anos.

Anos anteriores tenho-as dispendido no centro da Tailândia e, particularmente, uns dias, na antiga capital Aiutaá.

Este ano e porque considero uma obrigação, anual, gozei os primeiros dias repartidos por Aiutaá e Lopburi distante a primeira cidade 100 e a segunda 150 quilómetros, de Banguecoque; cuja distância se atingem em pouco mais de uma hora e meia dado às excelentes estradas de sentidos inversos.

Depois de uma noite dormida em Aiutaá a minha viagem continuou até Lopburi aonde o meu amigo historiador Prof. Puthorn esperava por mim para um jantar, juntamente com mais cinco seus amigos e vizinhos na sua casa onde vive como eremita cultural (ver www.aquimaria.com/html/aboutth.html ) depois da sua ocupação de professor de história e arte na Universidade de Lopburi.

Jantar ao fresco entre a macia  aragem da noite onde as picadelas dos mosquitos não incomodam porque a luz que nos alumia os afasta.

 O Prof. Puthorn é um exímio cozinheiro e preparou jantar para sete pessoas em pouco mais de uma hora que incluia: “tomian kung” (sopa, substancial, com camarão tigre, lulas, garopa e para lhe dar o gosto  picante e indispensável na culinária tailandesa pequenos piri-piris vermelhos), arroz, “jasmim”, cosido, para acompanhar (em toda a mesa tailandesa há o arroz a substituir o pão), salada, frita, de vegetais; bifes “grelhados” com bolas de pimenta e outros condimentos moidos em almofariz de pedra preta. Pedaços de ananaz, de mangas, de papaia e gelado, de côco fresco,  foi servido na sobremesa.

Para acompanhar a lauta ceia levei da minha garrafeira vinho do Dão “Terra Franca”.

O meu amigo Prof. Puthorn além de uma vasta cultura sobre arte e história é também a pessoa que melhor conhecimentos possui acerca da história, trágica, do grego Constantino Falcão, da sua esposa a luso/descendente Maria Guiomar e dos Jesuitas das Missões Estrangeiras de Paris no Reino do Sião e, particularmente, em Lopburi (distante 60 quilómetros da então capital do Reino, Aiutaá) e onde o Rei Narai passava largos períodos e administrava a sua corte.

História fascinante que proporemos a contar, mais tarde, dado a sua complexidade dos factos ocorridos em finais do século XVII  onde, nessa história deparamos com ambições do poder, a intriga provocada pelos franceses que termina:  com prisões,expulsões, torturas, fugas e as consequentes relatadas  mortes.

Durante a ceia o Prof. Puthorn informou-me que acabara de instalar peças, históricas, num edifício no antigo palácio do rei Narai e, fez questão para que no dia seguinte o visitasse e, passar-me-ia uma credencial para que o funcionário, superior, em serviço, me autorizasse a recolher imagens das peças que pretendesse. Artefactos que pertenceram à passagem dos “farangues” (nome dado aos estrangeiros na Tailândia), em Lopburi.

No dia seguinte, pouco depois do sol nascer, fizemos o percurso do hotel Lopburi (3 estrelas que recomendo a 12 Euros a diária) até ao velho palácio do Rei Narai e visitarmos a sala museu, preparada pelo meu amigo. Antes de ali chegarmos, a uns cem metros, temos as ruínas, do palácio de Constantino Falcão.

Pela vista que nos apresentam os muros meios destruidos e pelas escadarias de acesso aos salões se avalia a grandesa do palácio de linhas e desenho arquitectónico francesas. No entanto o estilo siamês não foi descurado em certos estuques aplicados nos caixilhos de parede para aplicação de portas de entrada para determinados salões.

Grandes recepções foram ali realizadas, jantares protocolares, cimeiras para a concretização de avultados negócios com a corte de Luis XIV de França e não menos as conversações conspiratórias com a cumplicidade de Constantino Falcão (apontado

Primeiro Ministro do Sião pelo Rei Narai) e os enviados especiais do Rei de França, para que o rei Narai Narai fosse convertido ao catolicismo e com isto a premeditada colonização do Reino do Sião, pelos franceses

À distância de uns 150 metros do palácio do Falcao há  uma rua directa ao palácio do rei Narai por onde,o Primeiro Ministro grego caminhava para se encontrar com o Rei e tratar de assuntos relativos aos negócios da Corte. A construção data muito antes da chegada, em 1662, dos francesas ao Sião (os portugueses já no reino se encontravam havia cerca de 150 anos).

Lopburi, com um rio do mesmo nome, era o meio de comunicação entre a capital a cidade de Aiutaá. O Rei Narai e porque a região é menos húmida e mais fresca que a capital passava ali a época de calmaria e das chuvas. Luis XIV e porque ambicionava vir a colonizar o Sião e fazer do reino o pêndulo da balança que equilibrasse o poderia na Ásia dos ingleses na Índia e dos Holandeses já estabelecidos na Batávia (Jacarta) que já dominavam as ilhas que hoje compôem  a Indonésia.

Luis XIV além de enviar os missionários jesuitas das “Missões Estrangeirras de Paris” com o propósito de cristianizar o Rei e o Povo do Sião (seria impossível e evitar a rebelião dado que a religião budista já estava implantada na monarquia e a totalidade da gentes a professarem), juntam-se aos missonários engenheiros, cientistas, astrólogos e médicos. O jesuitas constroem um observatória para ver de perto os astros, cujo visão, mais aproximada das estrelas, viria a maravilhar o Rei. Engenheiros fazem chegar aos  palácio do Rei e do Falcão  a água canalizada e é uma obra de engenharia  hidráulica  de alta tecnologia para a época no Sião. A água é recolhida numa nascente de serra que circunda Lopburi, conduzida por tubos de cerâmica até um tanque elevado e por gravidade chegava às residências palaciais.

Em Banguecoque (distante de Aiutaá uns 90 quilómetros), os engenheiros desenham e edificam um forte na margem esquerda do rio Chao Praiá, a via, aquática e principal  para atingir a capital do Reino e Lopburi. Depois de construido tropas francesas são ali colocadas e, fica assim tomado o controlo das navegações e, à mercê das bocas de fogo dos canhões gaulistas os barcos que se dirigiam para Aiutaá e se tornassem suspeitos de transportarem armas e soldados.

O antigo palácio do Rei Narai é um lugar de excelência que recomendamos não perder se porventura o leitor tiver o gosto pela história visitar Lopburi. Se programar sua viajem e inserida em grupo, possivelmente não terá a oportunidade de o visitar dado que as agências de viagens não incluem, por norma, a cidade de Lopoburi.Mas se a sua viagem for independente e sem estar sujeito a programas, poderá num dia de Banguecoque, por comboio ou autocarro  (inúmeros durante o dia) visitar uma localidade carregada de história e uma das mais antigas da Tailândia. Se pretender passar mais de um dia tem boas acomodações, seguras e pode caminhar por todas as artérias e lugares históricos  dentro da máxima e  plena confiança de seguridade.

Entretanto tem o Prof. Puthorn Bumadhorn, ali, que simpaticamente o pode orientar, em Lopburi. Poderá o leitor contactá-lo, antes da sua viagem para o endereço seguinte: Prof. Puthorn Bumadhorn – Thepsatri – Teachers College – 15000 Lopburi – Thailand ou pelo telefone (66) (0) 1 8517740. Bastar-lhe-á  informá-lo que é português e teria muito gosto de conhecer Lopburi e a sua história que o atenderá e ilucidará graciosamente.

 

                                              Viagem do Leste ao Sul

Muito haveria, ainda,para explorar ao norte e ao leste de Lopburi. Teriamos ao norte as monumentais ruinas da primeira capital do Reino Sião, Sukhotai,fundada em 1238 por Khun Pa Muang, através de uma batalha contra o império Khmer e  com isto retira os tais do estado de nómados em que viviam por uns cinco milhares de anos  e os identifica com um reino o do Sião. Ao leste uma  grande área de muitas centenas de quilómetros quadrados e  que se estende de Lopburi às fronteiras com o Cambodja, Laos e foi  ali que se  instalou o grande Império dos Khmer.

Abunda em toda a região templos de rica e intrincada arquitectura em Korat, Phimai e, encravado entre o território tai e cambodjano o templo  Kao Pra Vihar, erigido numa montanha, muito antes de Angkor Wat  e que  consideramos uma das sétimas maravilhas do Mundo.

Saímos dos lugares de história e viajei de Lopburi para a costa do Golfo do Sião (hoje Golfo da Tailândia). A distância de 250 quilómetros que nos separa das cidade de Chon Buri e a Praia de Bangsaen é vencida em pouco mais de três horas em velocidade moderada.

Largas auto-estradas de máxima segurança e bem sinalizadas dá-nos a oportunidade de olharmos o cenário exuberante para além das bermas. Campos de arroz verdejantes, florestas, onduladas,  na subida das encostas, algumas, altas, lagos aqui e mais adiante com flores de lótus  flutuam na tona da água.

Garças e outra passarada, em bandos, posam aqui e além entre o manto de verdura. Camponeses, com largos chapéus de palha na cabeça, transplantam, na terra lavrada lodosa e submersa, os caules da planta do arroz, que não tardam a crescer e produzir abundamente os grãos que são uma parte importante na alimentação e economia do povo tailandês.

Deparamos com enormes silos que irão armazenar arroz colhido na colheta;  fábricas, erigidas, nos campos que deram fruto e agora trabalho ao povo tai.

País onde o desemprego praticamente não existe.

Uma rodovia rápida circuntornando a cidade de Banguecoque evita que não nos enfronhamos no tráfego, intenso, que a grande cidade está sujeita no seu lufa-lufa quotidiano.

São cerca de cem quilómetros de 150 quilómetros que nos separa de Lopburi até à auto-estrada de cimento, elevada,  sobre outra, que nos conduzirá à estância balneária de Bangsaen.

Na altura de dez metros enquanto rodamos a 100 quilómetros à hora temos pela frente o cenário, impressionate, de grandes novelos de núvens brancos na cúpula da cordilheira que vinda do norte termina nas praias do Golfo. Ao nosso lado direito altas chaminés, que fumegam, para as alturas  e, muitos complexos industriais onde são produzidos veiculos, material electro-doméstico que a Tailândia exporta para o exterior.

Pelas três horas  de uma sexta-feira à tarde estamos na praia de Bangsaen. Mais ao sul situa-se a cidade de Patthaya, a zona vermelha e famosa/infamosa pela a existência de muito bares de raparigas e de gays e, nessa  zona de entretenimento é preferida por gente  dos países do leste da Europa (após libertada do comunismo) e de outros  da UE onde frequentemente acontecem os mais estranhos casos, onde se incluem os roubos ( a maior parte destes levado a cabo por estrangeiros) e, pelo excesso de bebida e, possivelmente droga.

Não se assuste quem nos  lê!

Patthaya tem excelentes hoteis de cinco e menos estrelas, a preços interessantes, com praias privadas e lindíssimas e um pouco mais além da costa  por escassos euros poderá passar um dia inesquecível numa ilha e apreciar nas águas límpidas os corais.

A zona dos bares é para aqueles/aquelas que gostam (água benta e extrema-unção cada qual toma a que deseja), de aventuras e emoções fortes que podem terminar numa esquadra de polícia ou numa forte ressaca no dia seguinte...

Optamos pela praia de Bangsaem e, uma estância dos tailandeses para onde nos fins-de-semana centenas de famílias para ali se deslocam e passar sábado e o domingo e  ao “largo” da buliçosa Patthaya.

Entre os milhares de tais os estrangeiros poder-se-ão contar pelos dedos e entre este número estamos nós.

O tailandês é acolhedor, hospitaleiro e tem a tendência, ancestral, de se isolar de outras etnias. Possui a sua identidade própria e já na era de Ayuthaya os Reis do Sião davam terrenos às comunidades, acolhidas, estrangeiras no reino, separadas da comunidade tailandesa e assim aconteceu aos portugueses quando lhes foi doado o Bangue Portuguete na segunda década do século XVI.

Entretanto nunca houveram obstáculos de vivência ou casamentos interetnias e viverem livremente nos espaços tais ou dos estrangeiros. Os tais não são racistas.

Em Bangsaen hospedamo-nos num magnifico hotel, em frente e a dois passos da praia pela módica quantia de uns 20 euros, incluindo o pequeno almoço.

A praia extende-se por cerca de cinco quilómetros. Pela manhã são erguidos centenas senão milhares de guardas sois que dão um colorido encantador ao local.

Ao meio dia as famílias ou casais estão gozando a sombra e o vento  fresco sob  floresta de umbelas .

As crianças brincam na areia ou nas ondas  mansas e segura que se desfazem em espuma na areia.

Almoçam, jantam de peixe, lulas  e marisco fresco que vendedeiras assam em fogareiros e fornecem “pratadas” a dois euros cada. Bebida há por ali muita onde se inclui o uisquie tailandês, refrigerantes e cinco tipos de cerveja. Passamos por ali, pedimos licença para tirar fotografia, para que não sejamos intrusos e entrarmos na privacidade dessa gente.

Há sorrisos, oferecem-me comida e bebida e arranjam o melhor sorriso para a fotografia.

Ao cair da noite outra gente chega a Bangsaen para jantar  ar livre e sentados em esteira num espaço que o Governo mandou construir junto ao mar.

Cozinhas montadas em “carrinhos” confeccionam saborosas iguarias onde o marisco e o peixe é rei.

Para cá da praia há a montanha dos macacos onde os primatas vivem às centenas em plena liberdade.

Os tailandeses gostam dos macacos e vão ali oferecerem-lhe comida como eu ali me desloquei e lhe ofereci o valor de um euro em vegetais e os “malandros”, ingratos e mal agradecidos  invadiram o tejadilho do  meu Honda Civic e companheiro de viagem nas minhas férias de 2004.

José Martins/2004


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