
Feira do Livro em Banguecoque
Ler para Saber
Em toda a Tailândia existe um apetite, constante, na leitura e o desejo do saber. Nas centenas de quilómetros que todos os anos percorremos e acontece nas nossas férias, anuais, vemos com os nossos próprios olhos a afluência de pessoas de todas a idades a encherem as livrarias na procura de leitura. O número maior são jovens estudantes e crianças que, algumas, com pouco mais de uns três anos.

Desde a altura que comecei rudimentarmente a ler ganhei o gosto pela leitura aí com uns sete anos, na minha aldeia, situada num vale do sopé da Serra da Estrela e nas proximidades do Rio Mondego.
Nas margens, frescas e airosa medraravm os salgueiros, os amieiros, os embudes; outras vegetações e, moinhos, de que as mós, no seu rodar fazia do grão do milho e do centeio farinha para cozer pão. Livros não havia e lá indo lendo os pedaços de papel de jornais que até serviam para embrulhar barras de sabão nas poucas mercearias que havia na minha “parvónia”.

Os pedaços de folhas de jornais fizeram, parte, da luz que alumiou o meu caminho pela apetência do ler e descobrir coisas novas. Jornais que inseriam leitura séria, onde não estampavam o sencionalismo ou o impressionismo de “drogar” o leitor, pouco esclarecido, como o mentiroso que dizia: << ter visto, apenas, um cachorro na moita >> e, transmitia o alarde, falso, no povoado, ter visto um lobo nas moitas no restolhal do cabeço.

Literariamente não cheguei a lado nenhum, fiquei-me pela 4ª classe, do ensino primário que pomposamente lhe davam outro nome: o Segundo Grau. Licenciamento que até dava estatuto e privilégio aos rapazes que conseguisse obter este “canudo”.
Nas sortes e apurado para o serviço militar, o licenciado com o segundo grau até depois da recruta era promovido a cabo com direito a uma divisa no ombro e mais adiante duas e usar o bibaque, na cabeça, ao lado. Não fazia sentinelas, fachinas e de impedido às ordens de um oficial, lhe engraxar as botas de cano; de levar os meninos à escola; carregar as compras da senhora do mercado até casa ou ir ao carvoeiro comprar o carvão de choça ou a carqueja para atear o fogão da cozinha.

Era um senhor na tropa durante os dois ou mais anos!
Assentou praça como “magala” raso, apanhou uma rapada higeénica o nosso cabo e depois de terminado o tempo de servidor da Pátria, podia optar pela carreira do exército na qualidade de “lateiro” ou regressar à aldeia mais evoluído e, entregava-se à faina do cultivo das terras ou arte de sapateiro.
Casava, constituia família e, como não havia livros para ler na terreola lia os jornais já amarelecidos e enxovalhados de tanto serem pegadas e lidos, na barbearia que abria aos sábados e domingos para lhe fazer a barba ou cortar o cabelo pelo o preço de um alqueire de milho ou centeio que era a tenção, anual, paga ao proprietário da barbearia.

A nostalgia mistura-se com lembrança dos meus tempos “académicos” na escola da minha aldeia, onde nenhum miúdo ripostava ao Mestre e, por ele, tinhamos mais respeito que ao pai.
O professor era olhado como um Deus!
Rezava, antes e depois das aulas, o Padre Nosso e uma Avé Maria com os alunos. As escolas eram separadas e não há misturas de rapazes e raparigas nas carteiras das aulas.

Se algum miúdo ou mesmo graúdo que tenha a oportunidade de me ler não fique por aí a julgar que os Mestres eram mesmo uns “bárbaros” e uns sisudos que “malhavam” por tudo e por nada.
Eram humanos, ensinavam-nos a História de Portugal, o nome dos nossos Reis, dos herois como o Infante Dom Henrique, Vasco da Gama do Pedro Álvares Cabral; os nomes das estações onde paravam os comboios; as regiões geográficas que constituiam Portugal e os rios que desaguavam no Atlântico.

E para completar a história, das nossas raizes; nos era ensinado as tribos que passaram por Portugal entre estas os Vândalos, Suevos, Alanos e também os Moiros.
E, se algum vândalo surgia dentro da “matula” a “menina dos cinco olhos” entrava em acção com duas ou seis palmatoadas nas duas mãos.

Era a continuação do velho rifão: <<para ser um português de razão é preciso “lambada” (lastimavam as que caiam no chão), no lombo; comer meia sardinha em cima de uma fatia de pão para ser um bom, luso, cidadão ! >>.
Levei algumas palmatoadas da “divina” menina dos cinco olhos que deixava a palma das mãos de vermelhão e nada de mau me provocaram e, ensinaram-me que pão, bordoada e palmatoadas nunca fizeram mal a ninguém mas sim ensinar o caminho do bem.

Na Feira do Livro levada a efeito no mega espaço de exibições de que lhe foi dado o nome de Sua Majestade a Rainha Sirikit, esposa do Rei da Tailãndia, no centro da capital da Tailândia admirei o desejo dos tailandeses na procura de livros e transportou-me aos tempos da minha infância.
Vou precisamente encontrar naquele espaço de cultura milhares muitos milhares de pessoas famintas, espiritualmente, de cultura em frente dos “stands” de vendas abrirem os livros, desfolhá-los e lê-los.

Entre esses milhares de tailandeses, observavam-se crianças e mais crianças sentadas no chão vivamente interessadas nos livros próprios e pedagógicos para as suas idades que os pais lhos adquiriam. Livros acessíveis a todas as algibeiras e, ainda com os descontos habituais na realização deste mercado livreiro.

Segundo informações publicadas no jornal diário “The Nation”, em oito dias, o período do evento, foi visitado por mais de um milhão de pessoas e a receita das vendas atingiu os 800 milhoes de baht (moeda tailandesa) e 16 milhões de euro!
As fotos inseridas dizem-nos tudo sobre o apetite de ler e o vir a saber das gentes tailandesas
A educação é a base do progresso e da riqueza de uma nação e, tem sido isto que tem acontecido na Tailândia um país com 62 milhões de pessoas e mais de 60% da população é a juventude.
José Martins/2004
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