Crónica do Meu Sábado
(11Setembro 2005)
Levanto-me á mesma hora, 5 da manhã e fico por casa a ruminar as minhas memórias de Banguecoque de mais de duas dezenas de anos.

Encaderno, precáriamente, recortes de revistas, a minha literáriamente, pobríssima prosa e com as novas tecnologias de digitalização princípio a revelar centenas de imagens em “slides” e películas que guardo há muitos anos em gavetas e passo o material para CD roms que armazena, um disco, umas 800 fotografias.

Este sábado não me sentei o dia completo em frente da mesa de trabalho.
Veio-me à mente que às cinco da tarde de ir respirara ar fora de casa.
Sem ir para muito distante de minha casa andei pelo bairro e ao cair da noite fui para as redondezas do enorme “shopping center”, o Central da Rama II, situado nas traseiras de minha casa.

Já vivo nela há 15 anos. A primeira era junto ao aeroporto internacional de Banguecoque de quando eu era um “oilmen” ao serviço da “Geophisical Service Inc.”, nos países das arábias. Tinha o privilégio de todas as seis semanas de trabalho de viajar até casa e descansar duas.

Assim o lugar recomendável para eu passar as minhas curtas férias era mesmo junto ao aeroporto. Em 1986 a maldita crise dos preços das ramas do petróleo que de 30 dólares o barril, passou para 10; perdi o emprego e os excelentes “petrodólares” que auferia mensalmente.
Com a perda do emprego mudei-me de área.
Fiquei pelo bairro “Prom Wat” a 16 quilómetros da baixa de Banguecoque e junto a à estrada, principal, de terra batida e de duas vias muito rudimentares.
Um canal ao centro onde cresciam flores de lótus.
Os camiões ao rodarem na estrada deixavam ficar buracos que cabiam dentro deles meio carro ligeiro.
Porém, passados 15 anos, a minha casa ainda não foi afectada com o progresso da urbanização!
Está situada junto a um pântano onde cresce verdura tropical e coqueiros
No espaço selvagem e pantanoso,igualmente, entre o capim de metro e meio de altura, florescem flores e crescem jacintos.
Vivem lá cobras, lagartos, sapos e rãs que não me encomodam.O meu cão “bangkeu” se encarrega delas. Um cão de procedência hereditária selvagem, cujo o cruzamento com a mistura da raça tai tornou-se um animal inteligente, dócil e nunca viria a perder o sentido, do faro herdado, dos réptiles, que não os deixa invadir o terreno onde habita e consequentemente os abate sejam do tamanho que forem.

O espaço verde, o seu proprietário é um velho, teimoso (normalmente os velhos são isso mesmo até os novos lhe chamam emplasmados caducos), conservador!
O meu velho vizinho e latifundário de cerca de uma geira bem medida já foi abordado por agiotas, especuladores e construtores para lhe comprarem o terreno, as cobras,os lagartos, os sapos, as rãs e a comida dos pássaros e me roubarem a paz dos anjos..
O velho não cede ao aliciamento do propósito da compra do espaço verde e aos compradores responde-lhe: “isto não se vende enquanto eu for vivo e quero que os meus bisnetos vejam o verde; os coqueiros, as cobras, lagartos e a passarada...” E bom seria que eu ainda ali vivesse quando os “miúdos”fossem ver a obra de preservação do bisavô..
Há uns quatro anos um casal de pássaros, porreirinhos, resolveu dormir no telhado da varanda de minha casa.
São aves pretas de bico amarelo com algum porte. Todos os anos fazem ali a criação dos seus “passaritos” .
Não são aves migratórias, não estão infectados com a gripe dos galos e das galinhas e não vôam muito além do lugar. Alimentam-se do que bicam no pântano de pequenos animais e crustácios Completam a dieta com bolas da ração, que em vôo picad, pilham dos pratos, durante a única refeição diária dos meus três cães
Estão familiarizados comigo e conhecem o pessoal de casa...
Por estranho que pareça homens e pássaros se relacionam óptimamente. Quando chego a casa pelas quatro da tarde esperam-me pousados nos fios do telefone. Pela manhã, uma hora antes do romper da aurora, os pássaros iniciam o chilrreio e à saida da garagem ao volante do carro lá estão, pousados nos fios, os meus vizinhos pássaros, a daram-se os primeiros bons dias.


Mas voltando à minha manhã de sábado depois das cinco, da manhã, sintonizei a RTPi para saber aquilo que se vai passando na minha Pátria.
Ó meu Santo Aleixo como o nosso e único canal televiso que chega ao mundo lusófomo segue tão pobre e de tão falta de ideias dos programadores….
Um mundo de mediocridade e de falta de imaginação!
Vira o disco e toca o mesmo!
Vá que não vá e salva a honra, do convento, o Prof. Herman José Saraiva com as suas crónicas históricas.
Não vou referir os programas da RTP África porque deixei de apreciar a dança “marrabenta” e a cantilena chorona das “mornas”.


E, muito menos uma especial referência, pormenorizada, à política portuguesa de momento.
Estou até às raizes dos cabelos de ouvir das bocas (dos que nos governam há mais de 30 anos), que Portugal vão mesmo sair da crise; que os velhos vão possuir mais justiça social; os “putos” da escola vão ter lições de inglês e, trabalho para os milhares de jovens licenciados, sem futuro, depois de anos a queimar as pestanas nas instituições de ensino superiores.


Mas vai ser lindo, daqui a uns 15 anos os miúdos de agora, com as três horas (dizem-me) de inglês a falar a língua “macarronada” e em ves de (para os amigos): “é pá como vais com a tua namorada”?
Mas: “how about you girlfriend!
Não, não Sr. Engenheiro Sócrates...está errado! Não alinho na sua, cosmética, opinião...
Ninguém fica aprender inglês aceitável, com um ensino de três horas por semana...
E há, por aí professores, qualificados, de inglês para ensinar os miúdos da primária? Não ande por aí a lançar sememte em terras terra que não vai germinar...
Bem é que a coisa não vai dar mesmo e caiem-lhe, em cima, os muros do: “O Carmo e da Trindade....”
Estou certo naquilo que digo.... Eu que já ando há 35 anos a tentar falá-lo mais ou menos entendível e, não consigo.
O meu inglês é ainda “macarronado”, apesar da paciência dos meus três amores” platónicos” que tive na Rodésia do Iam Smith.
Na política, as mesmas caras já velhas e enrugadas, que me enfastia olhá-las mesmo que sabendo que levaram um arranjo antes de as câmaras transmitirem a imagem para o ar.
As imagens dos incêndios que a RTPi me mandava para o ecran já me enojavam e também o delírio da transmissão da peça do jornalísta português e vendedor de tragidades!
Senti a dor da pobre gente a perderem os seus bens.
Depois vêm as vozes do alto que é preciso roçar o mato das matas.

Adorei o conselho do Presidente Sampaio: “é preciso limpar as matas!”
Ai,ai Sr. Presidente a sua ideia foi fantásticas... mas Sua Excelência esqueceu-se de transmitir que seria o primeiro a dar o exemplo que se iria munir de uma roçadoira e à frente dos portugueses descer vales, subir montes e o eliminar o mato.
Não cairia o Palácio de Belém no charco. O exemplo vem do alto!

O mato, os pinheiros e os bens da pobre gente vão continuar a arder em Portugal no próximo ano e nos que se seguem.
Os sucessivos governos depois do 25 de Abril de 1974 nunca teveram uma política agrícola para os pequenos agricultores.
Teve sim.lá isso teve... para o Alentejo que desgraçadamente aos que lhes foi dada a terra, depois da revolução, nunca conseguiram, plantar e colher chicharos que desse para fazer celeiro.
Com tanta pobreza que vai pelo canal RTPi mudo para os dos nossos hermanos castelhanos e para o italiano TVI. Este último uma delícia de programas de televisão italiana: os filmes, antigos do Tó-Tó, da Sofia Loren e da Gina Lolobridja.
Às cinco e picos da tarde saí de casa e guiei pelas ruas do meu bairro. Virei à direita e entrei numa travessa onde um “velhote” murou um terreno há uns meses e do conteúdo que havia para trás da vedação de tijolos decorados com caracteres chineses, nada sabia.
No meu vai e vem, quotidiana,na rua principal do meu bairro, observava, há uns meses o velhote muito concentrado a pregar nos blocos de cimento do muro uns caracteres,chineses, dourados.
Entretanto tive conhecimento que um vizinho de posses construiu um prédio de luxo, em frente e, o que de cima de uma varanda observava, incomodáva-o muito. Pudera mirar aqueles “trastes” similares aos famosos das caldas só que, estes, em vez de barro são de pau.
Barafustou mas o velhote é que não foi nos protests do vizinho e mantém os objectos.

Coisas e loisas velhas por todos os cantos à sombra da ramagem de mangueiras e em pau de vários tamanhos o órgão, principal, da procriação humana.
Alguns já as malditas formigas brancas já os tinham corroído.
Lá se foi a parecência viril e voltaram em paus carunchosos.

O fundador daquele espaço de coisas bizarras, quando circulava na travessa estava de troco nú à entrada do portão.

Hesitei ao volante do carro. Peço para entrar, não peço….sim vou mesmo pedir para ver o que por lá há....

Maha Chai, criatura dos seus setenta ou mais anos, dizem-me reformado, entretem-se por ali e, rabisca ao longo das estradas da área objectos, decadentes, mais ou menos santificados que são deitados em locais onde houve um acidente e morreu gente.
Por norma são pequenos altares e chamados “Casa das Almas”. Vêm-se por toda a Tailândia à porta das casas e, também nos campos onde cresce o arroz e outras culturas.
Nessas pequeninas casas, é lhes deixado pequenos pratos de comida para que as almas “maléficas” e atormentadas pelos actos de ruindade praticaram no mundo terreno em vez de irem apoquentar o sono das pessoas, justas ou de pesadelos, ficam por essas casitas a alimentarem-se.

Seguindo o meu roteiro à volta do meu bairro, um pouco mais além, um grupo de homens, jogam o fute-vólei num pequeno campo que não tardará ali ser construído mais uma moradia. Uma rede foi amarrada a dois paus e fazem autênticos malabarismo com uma bola, artesanal feita de vime onde não há mãos mas apenas os pés Este jogo é um desporto de raízes culturais dos tais e vem, de data imemorial. Tirei uma foto e continuei o meu caminho.

A seguir vou ao encontro de uma outra bizarrice! Era mesmo uma casota/barraca, talvez propriedade de um apanha papeis com bonecos estofados pendurados na frente, um pano lençol com golfinhos estampados a decorar a frente; uma gaiola com dois canários, que saltitavam, felizes na sua prisão; uma roda de motorizada em cima de uma lata com um letreiro e preço de 200 bates (4 euros). Ao lado uns vasitos, de plástico, com plantas exóticas, naturais e tropicais.

O dona ou a dona não os vi. Mas ali, à minha frente, está o “lar doce lar” e, um sentido humano de enorme significado onde até, afinal, num simples “barraco” pode existir a felicidade do viver. E há concerteza um mundo de poucas ambições de riqueza, opolência sofisticada e que a esta se mistura o cinismo e a hipocrecia.

Estou na estrada principal, a via é eixo de comunicação, mais significativo, desde o norte da Tailândia até à cidade/ilha de Singapura. Esta estrada quando fui residir para o bairro de “Prom Wat”, há 15 anos, era de dois traçados e de ruim piso. Hoje tem um traçado de 8 vias nas rodovia central e 4 nas exteriores. Na margens que antes eram campos agrícolas, em apenas quatro quilómetros foram construídos, três hospitais, três grandes superfícies, com diversões, onde se incluem: cinemas parques, restaurantes interiores e exteriores. Mas, o desenvolvimento por ali não pára! Projectos nos alicerces, outros a meio e ainda outros nos telhados.

Vista panorânica da cidade de Banguecoque
Só a excelente harmonização política e sócial dos tailandeses poderia dar aso ao crescimento, constante, e seguro estou não irá parar.
José Martins - 2005
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