
Durante os já longos anos que vivo na Ásia tenho assistido a várias celebrações do Ano Novo Chinês.
O de maior significado, mas mediano de grandeza, aconteceu em Macau no ano de 1988, quando o território chinês era administrado por Portugal. Festa que se prolongava por vários dias e, muitos dos portugueses, ali residentes, aproveitavam os dias, das festividades, para viagens, por norma, para as paradisíacas ilhas do Golfo da Tailândia, fugindo, assim, ao matraquear, constante, durante as 24 horas, dos panchões de pólvora e dos estoiros secos, contínuos, em todos os pontos da Cidade de Santo Nome de Deus.


O Ano Novo Chinês toma maior ou menor significado festivo dependendo, este, das condições de vida das populações.
De qualquer forma haja muita ou menos abastança a passagem do velho para o ano novo, desde há muitos milhares de anos, tem semelhante religiosidade, na China ou nos países de acolhimento onde as comunidades oriundas do território mãe labutam, evidentemente, como todos os emigrantes em procura de melhores condições de vida.


A história do Ano Novo Chinês, as suas raizes perderam-se no tempo e provêm de datas ancestrais. Segundo o calendário da dinastia Xia (século XVI antes de Cristo) a celebrações das festividades já ali se encontravam calendarizadas.
Era de Imperadores e de quando a China, já com uma população vasta (hoje com cerca um bilião e trezentos milhões) as ocupações das gentes viravam-se para a agricultura. Os camponeses durante o ano, decorrente, sob trabalho árduo, ansiosamente, aguardavam pelo único dia de descanso, anual, que os Imperadores lhes conferiam.
Ano novo vida nova!


E há pois que limpar o que de sujo se encontra em casa, nas estabelecimentos comercials (principalmente as fachadas) e, encaminhar para o lixo uns “trastes”, umas panelas e uns tachos da cozinha, umas cadeiras e substituídos por utensílios novos.
Os miúdos, mais ou menos até à idade do seu primeiro auferimento de dinheiro proveniente do seu emprego ou de negócios visitam as casas dos famíliares para a colecta do “Ão Pau” (um envelope com uma importância em dinheiro) para comprarem umas guloseimas ou os com sentido tradicional de apetência pelo dinheiro o guardam para mais tarde iniciarem o princípio de suas vidas de comerciantes no futuro.


Chineses abastados, na quadra do Ano Novo, distribuem pelos que os servem, durante o ano, um envelope com o “Ão Pau”, assim como uma mesa farta com inúmeras e tradicionais iguarias onde o principal petisco é pato assado ou cozido.
O Sampengue no seu todo: história, ópio, prostituição no século XIX e actualmente
As celebrações do Ano Chinês na Tailândia, o maior número de pessoas, concentra-se, tradicionalmente, no “Sampengue” e modernamente designado por “China Town”. Embora, também, as festividades se estendam por outros pontos de Banguecoque e províncias.
A palavra “Sampengue” é deveras ofensiva quando proferida de mulher para mulher tailandesa/chinesa, debaixo de uma discussão de rua.


De “Sampengue” foi apelidada uma senhora, que ali viveu pouco depois da fundação do núcleo chinês, cujo este, havia mais de duas centenas de anos, localizava-se em Aiutaá (segunda capital do reino do Sião),e a pouca distância da comunidade portuguesa no “Bangue Portuguete”.
Depois da invasão da capital siamesa, em 1767, pela tropas do Reino de Pegú (Birmânia) foram instaladas pelo General Taksin (o libertador e o primeiro Rei do Sião na era de Banguecoque), junto à margem direita do rio Chao Praiá e a lusa-tailandesa na margem esquerda e precisamente uma em frente de outra e, à nova localização, é lhe dada o nome de Santa Cruz.
A estes “patrícios”, outros se juntam, vindos da China mãe, dado que no grande país asiático, além de se encontrar isolado do mundo exterior (prova-o construção do “ Grande Muro da China” há mais de dois mil anos e com uma extensão, do Oeste ao Este, de 6.700 quilómetros), é governado pelo sistema feudalista e, também, porque no território a comida não abundava. Por séculos e séculos estão as populações envolvidas em guerras ou sob aopressão dos imperadores ou mandarins.
Os conflitos “Anglo-Chinesa” de 1834 a 1842, também conhecidos pelas “guerras do ópio”.
E, ainda, a invasão japonesa com graves consequências para a estabilidade da soberania da China e junta-se-lhe as atrocidades das tropas japonesas durante 1894-95.
A população, entre as guerras, vive em extrema pobreza ora umas civis e, ainda mais uma vez os japoneses em 1931 invadem a província da Manchúria e instalam um emperador “pupete”.
Os nipónicos continuam a saga e em Julho de 1937 controlam a maior parte dos portos de mar e linhas de caminho de ferro, cometem atrocidades nas populações e rendem-se em 1945 às forças de guerrilha de Mao Zedong que se bate desde 1930 para controlar a China. Mao Zedong (camarada Mao) en Junho de 1950 com os seus comparsas, comunistas, implanta a República Popular da China e chama a si o totalidade dos destinos do país.


No Reino do Sião em 1820 a população chinesa, era de cerca de 440.000 pessoas e, em 1880 era calculada em metade dos siameses residente em Banguecoque.
A fama da riqueza do Reino do Sião corria célere na china e as condições de pobreza ali havidas fazia com que os homens sinos, desesperadamente, abandonassem as raizes e caminhassem em direcção a outras paragens em procura de melhor vida. Mas a migração humana, chinesa não só se instala no Reino do Sião, como em outros países do Sudeste Asiático, América do Norte; central e países de Africa onde se inclui Moçambique com uma comunidade, significativa, na Beira e Lourenço Marques (Maputo) que nas duas cidades se fixou no princípio do século XX, na província ultramarina portuguesa.
Parte do número desses emigrantes sinos já estavam viciados pelo uso e abuso do ópio, cujo este estupefaciente fora introduzido pela “East Índia Company” na China em 1773.
Voltando à Srª Sampengue, esta, foi proprietária de uma casa de “porta aberta” dentro do número de 71 bordeis que existiam no Sampengue, cujo lucros, amealhados pela “madama”, foram mais tarde doados para a construção de um dos mais belos templos budista.



Nas redondezas do bordel de “madama” Sampengue havia, ainda 128 casas de jogo e 245 lojas de venda e fumo de ópio que antes era proibida a inalação e passou a ser livre para aqueles que pretendessem entrar no mundo dos entorpecimentos, e por termo, com isto, à clandestinidade do uso e abuso do ópio cujo os propriétários desses estabelecimentos contribuiam com o pagamento de pesados impostos à administração do Reino e, numa altura que a economia se encontrava desfalcada de fundos.
A Feitoria de Portugal, chegou a passar alguns alvarás para abertura de lojas de fumo de ópio e de venda de vinho de arroz aos protegidos chineses debaixo de sua protecção



Um acordo assinado entre Portugal e o Reino do Sião, em 10 de Fevereiro de de 1859 conferia o privilégio a todos os cidadãos portugueses/luso-tailandeses/protegidos ficariam sob a jurisdição da Feitoria e julgados, absolvidos ou condenados no tribunal instalado na missão.
Claro está que se a ofensa fosse grave e condenado o protegido, por norma, pagava uma coima e antes de satisfazer o montante, que lhe tinha sido aplicado pelo juiz/cônsul, recolhia ao cárcere consular que para o efeito havia sido construída nas traseiras da chancelaria.
O Sampengue, ou “China Town” (nome inglesado e nunca proferido pelos tailandeses), segue, a partir da antiga paróquia da Senhora do Rosário, situada, a uns 200 metros, em direcção ao norte, da Embaixada de Portugal, ali instalada há 222 anos e oficialmente há 184 anos.
O bairro, anexo à igreja princípia a ser habitada por portugueses macaenses, luso-tailandeses no final do século XIX.



Os chineses protegidos, menos, claro está os macaenses, pelo Consulado de Portugal emigraram para o Sião usando como entreponte Macau de que, ali, funcionários do governo de Macau usando métodos corruptivos, a troco de dinheiro, lhes passavam um passaporte; cujo este documento de viagem lhes permitia viajarem até ao Sião e, com isto a facilidade de instalação e a protecção do consulado e assim iniciarem a sua vida que poderia ser com abertura de um negócio de venda de bebidas alcoólicas, arroz e lojas de venda e uso de ópio ou fazendo fretes e transporte de pessoas puxando riquexós na área do “Sampengue”.
Voltando a Macau e para explicar o porquê de parte de chineses usarem a ilha, administrada por um governador português era pelo facto de que a colónia, inglesa, de Hong Kong ainda não tinha a dimensão de Macau e, também porque o relacionamento China/Inglaterra ainda não estava consolidado, devido à “Guerra do Ópio”.
Outras fugas dos chineses do território aconteciam e, nas mais diversas formas sofisticadas e, dão-se devido não só à perturbação política interna e externa como a falta de alimentos. Cria-se, então, nos Estados Unidos de América, em S. Francisco uma substancial comunidade e parte dali o nome do “China Town”


A gente oriunda da China chegava pobrissíma a Banguecoque e com pouco mais de que a esteira e a travesseira para dormir. Pessoas combativas e as leva a não aceitarem a resignação do adverso do destino. Regem-se as suas vidas acreditando em superstições e estas sempre dirigidas aos caminhos da prosperidade. Desempenha, isto, uma constante apetência pelo dinheiro.
Em poucos anos estabilizavam as suas economias e constituiram enormes fortunas e, foi assim, que o Sampengue volta, praticamente desde a fundação, até hoje, o pulmão da economia tailandesa.



Macau não é apenas a entreponte (ilegal) para os chineses que emigravam para o Sião e já em 29 de Dezembro de 1872, o escritor Eça de Queirós, quando Cônsule Geral de Portugal em Havana (Cuba colonizada pela Espanha) informava o Conselheiro Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros o seguinte: (1)
<< Existem, II.mo Sr., nesta ilha mais de cem mil asiáticos que o Regulamento de Emigração pelo porto de Macau põe hoje explicitamente sobe a protecção do Consulado Português. Se V. Exa atender a que este elevado número de colonos é uma das forças mais vitais da agricultura da Ilha, a que este número crescerá pelas condições deste país que entrega todo o seu trabalho a braços importados, e que a raça chinesa subtil e hábeil poderá, tendo a sua actividade livre, tomar em grande parte o domínio das indústrias da Ilha – V.Exa compreenderá a importância deste consulado que pode abrir a cem mil almas o registro de nacionalidade portuguesa: é portanto urgente que o Governo de S.M. atenda às condições em que vive aqui esta população colona. >>
Eça de Queirós transmite ainda, à Secretaria dos Estrangeiros, os maus tratos que os chineses, sob os “coroneis” espanhois, estava submetidos, depois de cumprido o primeiro contrato de oito anos, efectuado em Macau, e que, depois o seguinte tomava um carácter de exploração e opressivo. Os colonos espanhois, além de os obrigar a trabalhos forçados e à retenção da cédula praticavam igualmente o terror entre os emigrantes e, Eça transmite:
<< Há 18 meses chegou à Ilha um china, não como colono, mas livremente como súbdito de Macau, médico de profissão e como tal empregado a bordo dum navio de emigrantes. Este desgraçado foi preso pela polícia, em seguida ao seu desembarque , como colono sem papeis. Há 18 meses que está no presídio; ultimamente, conseguiu vir ao consulado, reclamar-se como português: está consumido de trabalho e quase idiota de terror. Há um mês que reclamei, energicamente pedindo a sua imediata liberdade: não houve resposta alguma, e o miserável continua no presídio!>>

No caso de suas emigrações para o Reino do Sião e, até com uma certa liberdade de vivência, por norma, casavam-se com uma mulher siamesa, viviam em comum e continuavam a enviar dinheiro para as mulheres deixadas na China com filhos. Os protegidos sob a Feitoria/Consulado de Portugal, por conveniência (alguns passam ao estatuto de cidadãos nacionais), renunciam à cidadania portuguesa e optam pela do Reino do Sião.
Hoje no Sampengue, não há bordeis, salas de fumo de ópio como é óbvio. Entretanto no núcleo chinês ainda se mantêm muitas características da sua fundação. Casas de madeira com telhados de zinco a sobresairem as águas furtadas, lampeões de papel pendurados no topo das portas, gaiolas com pássaros e templos para adoração e seguimento da doutrina filosófica de Confúcio e ainda outros, imponentes e dourados budistas.
Durante as 24 horas dos ponteiros do relógio, apenas umas quatro a movimentação do Sampengue sossega, da meia noite às quatro da manhã quando a esta hora as pessoas se começam a mexer para alimentar os mercados de rua e praças de legumes, peixe, panos e roupa para vestir. As inúmeras ourivesarias, abrem depois das nove, para vender ou comprar ouro de lei de 99,99%. A apetência de posse de ouro, pelo tailandês, é facto comum, porque este dá-lhes o estatuto de riquesa e, também o acudir-lhe em actos de aflição, económica, que o pode vender ou pedir um empréstimo na casa de penhores.
O Sampengue no ano de 2004 ostenta riqueza e com esta, claro está, a felicidade.
José Martins/2004
1) Eça de Queirós Correspondência Consular –Edição de Alan Freeland – Edições COSMO 1994
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