
Portugal
na TailândiA
Na Peugada dos Portugueses
A
Bênção das Águas
No
passado mês de Setembro choveu torrencialmente por toda a Tailândia. Advinhei
que o rio Chao Praiá iria transbordar e as terras baixas de Ayutthaya (Aiútaia)
iriam ser alagadas e consequentemente as escavações da Paróquia de São
Domingos no “Bangue Portuguete”. Em Banguecoque os barcos já navegavam a um
metro e meio de altura do solo do jardim da Embaixada de Portugal, este
protegido com um forte muro de uns 60 centímetros, de largura, para evitar
infiltrações.

Ruas
nas duas margens da cidade de Banguecoque, durante a maré cheias no Golfo da
Tailândia, ficaram completamente inundadas com as entradas das casas,
empilhadas, com sacos de areia. Entretanto as bombas,mecânicas e eléctricas de
saída de grande caudal, nas margens, frenéticamente projectam gigantescos
jorros de água para o Chao Praiá. A vida na cidade segue igual sem mudança do
viver quotidiano ou alarmes. A benção das águas que trás fartura à Tailândia.
Não
escondia a minha preocupação sobre o que se estaria a passar na Paróquia de São
Domingos no Bangue Portuguete. Os jornais de Banguecoque, havia uns oito dias
mostravam fotos, nas primeiras páginas, da cheia e os inconvenientes na população
na

margens
dos três rios de Aiútaia: Chao
Praiá, Pasak, vindo das terras do antigo império Khmer e o Lopburi, um pouco
mais, ao Norte do nordestino Pasak. Rios, com larga história, por eles
navegaram, reis, exércitos, mercadores e piratas sem conta.

O
nosso Fernão Mendes Pinto nos conta histórias, maravilhosas aventuras nesses
três rios, cujas àguas o levaram a conhecer as terras dos Khmers, os Reinos de
Chiang Mai, Lampang, Lumpum que nos dão conta de factos históricos, contados
com uma simplicidade impressionante . Destes relatos foi extraída o filme, épico,
de mais de três horas de exibição, da Rainha Suriyothai, que disfarçada de
homem lutou,para salvar a honra da morte de seu marido, contra o Rei de Pegú.
Suriyothai é hoje um símbolo da resistência e luta da mulher tailandesa. A
sua memória, além da grande metragem do realizador
Principe
Chatri Chalerm Yukol ficará para sempre, num monumento, dourado, junto ao palácio
onde viveu e na margem do Chao Praiá.

Parti
de Banguecoque ao fim da tarde de sexta feira, o trafego automóvel começava a
empapar as ruas da Cidade dos Anjos e, ziguezaguiando por todos os espaços
disponíveis entrei na auto-estrada que me levaria, passado uma hora e vinte
minutos, à segunda capital que foi da Tailândia, Ayutthaya. A cidade da minha
paixão, dos meus amores e quando nela vivo, por uns dias, sinto-me como se em
Portugal estivesse.
Alguém
me disse um dia que eu tinha vivido no Campo Português há séculos quando ali
existiu uma comunidade portuguesa que chegou atingir uma três mil almas lusas e
tailandesas. Bem, quem mo afirmou professa a religião budista e dentro da sua
credulidade que depois da morte existe a reencarnação.
Não
acreditei tão-pouco desacreditei o pensamento da senhora devota de sua
Santidade o Lorde Buda.

Mas
imaginei que se assim tivesse sido, certamente, teria sido amigo do Fernão
Mendes Pinto, colocado à distância o pirata António Faria; abominar o
“Galego” ao serviço do Rei do Pegú que por algumas vezes o fizemos dar às
“Vila de Diogo” para lá das paliçadas, que fortificavam Ayuthaya, quando
eu e o Pinto fomos camaradas de espingardas, arcabuses e artilharia pesada ao
serviço de Sua Majestade o Rei do Sião.
E,
quando eu e o Pinto fomos artilheiros de peças de boca larga, no fortim do
porto internacional de Pom Phet e, sem a suspeita de piratas e peguanos nas águas,
rumavamos de almadia até ao Bangue Portuguete onde ali viviam duas siamesas que
por elas nós arrastavamos a asa. Mas depois da visita aos nossos dois amores,
sempre haveria, a

cavaqueira
com os colegas, de folga, guardas do palácio real, de sua Majestade o Rei de
Ayutthaya e uma caneca, de bambú, cheia vinho português, meio avinagrado, que
o missionário dominicano nos oferecia, dentro de uma botelha trazida da
dispensa e nos afagava as saudades da pátria lusa.
Ainda
não eram 5 da tarde quando me acomodei no Grande Hotel de Ayuthaya. Não se
pense, por aí, que sou um maníaco dos hotels de 5 estrelas, isto porque não dá
o magro salário, mensal, para tamanha estravagância. A primeira frase do nome
do hotel “grande” mede-se pelo tamanho e não pelo luxo cuja diária estás
nos 600 bates (tailandeses) que em euros fica por menos de uns 15.

Quando viajo para Aiútaia senti-me pássaro fora da gaiola. Depois de
abrir a janela do meu quarto do hotel, vislumbrei os campos de arroz alagados,
onde a verde estava submersos, para além da margem do rio Chao Praiá. Os
templos budistas com os pinos, sagrados, a espelhar na àgua na movimentação
do sol na rota do poente. “Barges” ,mergulhadas na água até ao convés
navegam puxadas por um reboque que delizam ora para uma margem depois para outra
para vencer a força da corrente da época das chuvas. Um reboque,puxando três
negras e enormes embarcações metálicas, o piloto atreveu-se a passar debaixo
da ponte e encalhou a primeira no tabuleiro.Há que esperar que a maré desça e
siga o norte.
Antes
do pôr do sol, fui dar uma espreitadela à outra banda do rio e no Campo Japonês,
Yamada, onde pouco depois de os missionários dominicanos se terem instalados,
os cristãos japaneses e convertidos por Francisco Xavier, perseguidos pelos
samurais fixaram-se, em frente ao Bangue Portuguete, onde poderam praticar
livremente o catolicismo e conviver espiritualmente com a comunidade, cristã,
portuguesas. Ali, embora não haja documentos que nos afirmem a veracidade, se
crê ter nascido a lusa/japonesa Maria Guiomar, senhora de uma extrema
honorabilidade que bem pode ser, sem favor algum, um símbolo da lusa/descendência
em toda a Ásia. Católica ferverosa, esposa do grego Constantino Falcão,
personalidade influente na Corte do Rei Narai, em Lopburi e aproveitado pelos
enviados de Luis XIV de França, cujos desígnios seria o de colonizar o Reino
do Sião. Custou ao Falcão o ter servido o Rei do Sião e o França a morte por
degolaments. Maria, durante a sua viuvez e com filhos, foi cozinheira da Corte e
deixou na Tailândia, várias especialidades de doçaria portuguesa e a mais
popular é o fio de ovos.

Do
Campo Yamada olhei o ancoradoiro submerso e apenas via o cimo da armadura com
bandeiras do Vaticano e da Tailândia. Mirei e remirei de todos ângulos o pedaço
de Portugal em Ayutthaya. Fiquei mais ou menos tranquilo porque atrás daquela
forte corrente de água lodosa, havia algo que me indicava que a área estava
protegida.

Viajei,
depois, como em peregrinação e
romagem,habitual ao “Bangue
Portuguete” onde por 250 anos viveu uma comunidade lusa/tailandesa a duas braçadas
de barco, do Yamada, mas a uns 12 quilómetros por estrada. Encontrei os lados
da via,reforçadas com um muro de terra e sacos de areia nas entradas para as
casas. Moradias penduradas em estacas, de madeira, mergulhadas até à varanda.
Os moradores, permaneciam nas bermas da estrada, pescando e, como as cheias além
de trazer incovenientes, também, trazem fartura, de colheitas, muito peixe e
pesca abundante.

Pelo
caminho e antes de atingir o Campo Português passei junto ao espaço da
comunidade muçulmana de origem malasiana, residente, praticamente, desde a
fundação de Ayuthaya em 1350. A tolerância dos Reis da Tailândia permitiu
que étnias de credos diferentes vivessem no seu reino dentro da maior harmonia.
Os seguidores de Muhammed, os homens, em grupos, conversavam na borda da estrada,
o gado bovino, rumina a palha seca em cima de pequenos montes, enquanto que os búfalos
de água repousam, mergulhados no grande lago,fugindo, assim às picadelas dos
insectos. A miudagem, de barretes brancos, na cabeça, brincam por ali chutando
a água enquanto outros, em cima de uma pequena canoa de plástico lançam fios
com anzol pendurados numa vara para pescar algum peixito.
As mulheres preparam a ceia.
Mais além e junto à margem do Chao Praiá a mesquita, a casa de oração está
com água até ao meio das paredes.

Nesta
minha ida, ao Bangue Portuguete não observei a tradicional vida campesina das
gentes tais; trabalhando dentro do mesmo método do princípo da fundação do
Reino de Ayuthaya pelo Rei U-Thong. As mulheres de pele tisnada, na monda do
arroz ou na apanha da batata doce,dos amendoins, dos lótos de flor branca para
vender no mercado e o ornamento dos altares do deus Buda aguardavam por ali
esperando que o rio desça o nível da água.

Todo
o mundo campesino, as casas das almas que protegem os frutos dos campos, das
almas penadas que vagueam na noite quedam-se por esses altares a comer algo que
ali foi colocado por aqueles que acreditam no sobrenatural. Quedavam-se submerso
e sob a benção das cheias do Chao Praiá que fará fartas as novas colheitas.

A
dois quilómetros da área muçulmana está o Bangue Portuguete. Á entrada e
onde está uma placa, que perpetuará por várias gerações, a Obra que foi
iniciada pelo Embaixador Melo Gouveia, em 1982 e o Doutor José Blanco
Administrador Fundação Calouste Gulbenkian, cujo parte de dois financiamentos
pertenceram à Gulbenkian que duou um montante muito significativo, em dólares
que permitiu que o passado de Portugal no Antigo Reino do Sião esteja vivo.
Junto
a essa placa uns poucos católicos do campo,conversavam, esperando que as águas
do Chao Praiá desçam e as suas vidas volte à normalidade.Gente que me é
familiar há 20 anos.
Não
pode ficar de forma alguma esquecido o contributo e o entusiasmo nas escavações
do Bangue Portuguete do Governo da Tailândia que através do Departamento de
Belas Artes (Fine Arts Department). Nele estiveram envolvidos dezenas de
estudantes, universitários, de arqueologia animados impressionantemente no
projecto e o Arquitecto Eduardo Kol
de Carvalho (Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Tóquio) que foi
um dos grandes animadores na reconstituição da Igreja de São de Domingos.
Encontrei
o Bangue Portuguete protegido da bênção das águas. Uma barreira de peças de
cimento, longitudinais, em forma de cutelo encaixavam numa fenda aberta a toda a
largura do campo que não permitia força imparável da corrente do Chao Praiá
penetrar com campo e no cemitério,coberto, onde descansam os ossos de lusos/tailandeses
que viveram e morreram em Ayutthaya.
Dois
homens, os guardadores das águas, estavam por ali a tomar conta de duas
pequenas bombas e escoando, penetrando da grandeza do caudal, uns pingos que
entraram, talvez, pelas rotas das topeiras.
Cheguei
ao Grande Hotel de Ayutthaya junto às 8 da noite.
Procurei
a esplanada “bargue”/restaurante
para jantar. À minha frente estava o porto internacional de Pom Phet. Via as
luzes das almadias navegavam do fortim, portuguessímo, Pom Phet para o templo
que ficava no outra margem do Pasak.
Levei,
comigo, de Banguecoque uma garrafa de tinto e um sacarrolhas para abrir a Grão
Vasco e acompanhar com o nectar do Dão, meia dúsia de lagostins, do Chao Praiá,
grelhados, pela módica quantia de 140 bates, uns 6 euros.
Ao
fim da ceia. em cima do Chao Praiá estava alegre, não só pelos 75 centilitros
do tinto ingeridos mas também pela beleza que tinha observado durante o fim da
tarde em Ayutthaya.
Debaixo
da minha fantasia imaginei o meu camarada de armas Fernão Mendes Pinto,
caminhando em direcção à paliçada Pom Phet onde o luar da noite fazia
brilhar, as ameias lusas, espelhando-as na água que cobria a pequena parada.
Mais
tarde o baluarte é modernizado e arquitectado, na década de 1660, pelo missionário,Jesuita,
do Padroado Português do Oriente, Tomás de Valguarnera. Hoje conservado e
conhecido como uma peça de defesa, de raizes lusas, em Ayutthaya e guardião do
porto de Pom Phet contra a infiltração de piratas, o controle das navegações
do Chao Praiá e na defesa dos exércitos, invasores, peguanos.
José
Martins
Ayutthaya, 13 Outubro de 2002.
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