A
poesia do rio e da minha rua
Em
Banguecoque tenho muitas ruas.
Rios só um: o Chao Praiá.
Aquela onde vivo,outras que me são familiares
há muitos anos,principalmente as que me servem de manhã para chegar à
Embaixada de Portugal e de volta a casa ao fim da tarde.
Itinerários que não mudo para me facilitar a fuga ao tráfego
nas horas do começo da movimentação da grande cidade.
Pontualmente, programado, às seis da manhã, eu e a Maria
saimos de casa.Oitocentos metros é a distância que separa a Varanda do Oriente,
de minha casa, até à auto-estrada. Depois de atingir a enorme via, o eixo
rodoviário da Tailândia, do Norte
ao Sul até à fronteira da Malásia, são uns escassos 15 minutos que o
meu utilitário necessita para deixar minha filha na escola internacional que
frequenta há uma dúzia anos.
A escolas em Banguecoque, tailandesas ou internacionais
iniciam as aulas (a grande maioria), às sete, dado ao rigor do clima tropical;
encerram às duas e meia
da tarde e, com isto os alunos ter tempo para executar as lições para o
dia seguinte.
Antes de iniciar as minhas funções que começam às nove
tenho duas horas para consumir, e não as aproveito, sentando-me a polir o fundo
de uma cadeira, num café da Rua da Silom. Vou assim para o meus espaços
matinais que são a minha rua e a margem do rio Chao Praiá.
Depois de estacionar o carro para lá dos portões que dão
acesso ao parque da Antiga Feitoria de Portugal (hoje a Chancelaria da Embaixada),
saio,para a rua, com a máquina, de fixar imagens digitais, que não precisa de
filme, revelação e, até podem,ser arquivadas na memória do computador,
gravadas em CD
Rom ou em disquetes, por anos.

Percorro a minha rua,
a Captain Bush Lane que é, defacto, um mundo poético, e
prazer envolver-me na movimentação,humana e observar tudo que por ali
passa no começo de mais um dia para milhares de banguecoquianos.
A cidade de Banguecoque é dividida em duas partes. O marco
é o Rio dos Reis (Chao Praiá, Mename ou Mãe das Águas) onde correm as àguas
das terras do Norte e Nordeste da Tailândia e vão desaguar no Golfo da Tailândia..
Sobre as àguas do Chao Praiá, durante as 24 horas, dos
ponteiros do relógio, flutuam canoas, barcos, comboios de barcaças,mergulhadas
até ao convés, de
grande porte, puxadas por reboques vindos de grandes distâncias, a montante, do
rio, em direcção aos armazens do porto de Banguecoque, onde alijam a carga,
composta de produtos da terra ou materiais de construção.

A Casa Nobre, um palacete, a residência
dos Embaixadores portugueses acreditados na Tailândia e uma peça,
finissíma da arquitectura,colonial portuguesa e conhecida na Tailândia por
Sino/Portuguesa, está a pouco mais de 100 metros da margem direita do rio. A
frontaria da Nobre Casa, ainda com o distintivo da monarquia lusa, as cinco
quinas, os sete castelos e a corôa dos Reis de Portugal decorada com ramos
verdes e cravos vermelhos.
Quando foi construída, depois de meados do século XIX, a
circulação e movimentação das gentes; das mercadorias era efectuada pelo
Chao Praiá; pelos canais de uma cidade, acabada de surgir entre a densa vegetação,
aquática, abertos a braços do homem e dado, assim, nome à nova capital, pelos
cronistas,da época, europeus a “Veneza do Oriente”. A capital da Tailândia
é, ainda hoje, conhecida
por esse nome.
A bandeira das quinas, de três panos, já desfraldada ao
sabor do vento que lhe é favorável da monção, na cruta do pau,flutua a uns
35 metros da base de cimento. O símbolo da nação, portuguesa, está ali desde
1820 quando Sua Majestade o Rei Rama II, ofereceu a Portugal a larga parcela de
terreno para construir Feitoria e estaleiro para reparar ou construir barcos.

Bandeira e
pau que a suporta,serviu por muitos anos ponto de referência para as
pequenas embarcações navegando nos canais, dos pontos mais distantes de
Banguecoque para se orientarem em direcção ao rio Chao Praiá. O farol luso da
margem do Chao Praiá tem a concorrência das alturas, a poucos metros, de uma
torre de vidro que lhe
tirou o visual
da orientação. Mas continua no mesmo mastro garbosa, a ondular o pano com as
cores que identifica o lugar como espaço de português na Tailândia.
A “Captain Bush Lane”, a minha rua ( Rua do Capitão
Mata), o nome foi uma homenagen ao Almirante John Bush K.C.W.E., que serviu dois
Reis, Majestades Maka Mongkut e Chulalongkorn, (Pai da moderna Tailândia), pelo
periodo de 40 anos, como administrador e organizador do Porto Marítimo de
Banguecoque desde a metade do século XIX até ao começo do XX.
Rua que ainda hoje mantém pedaços da história de um
passado. Uma casa sino/portuguesa, desabitada, está em coma há muitos
anos,certamente aguarda os golpes implacáveis do camartelo para o lugar histórico,
onde foi construída, se erguer uma torre de cimento e vidro.

Um pouco mais à frente está a tabuleta da empresa “Louis
Leonowens”, filho da Anna Leonowens, professora de inglês da Corte de S.M. o
Rei Mongkut (reinou de 1851 a 1868) que escreveu a contraversa obra o “Romance
no Harem”, que
mais tarde viria a ser aproveitada por Hollywood para rodar a grande metragem
“O Rei e Eu” e motivo ofensivo ao povo tailandês dado que a história não
narra os factos verdadeiros.
A destoar o cenário, da minha rua, é a luxuosa ilha de
riqueza o Hotel Royal Orchid, famoso é certo, mas não tanto como o, secular,
Oriental a um quilómetro a jusante e preferido pela gente, “bonitinha” da
jet set internacional e, de alguns políticos, impressionistas, portugueses (não
revelo nomes), têm uma paixão predilecta, pelo hotel,mais famoso do mundo. O
escritor Somerset Maugham, hospedou-se, na sua primeira visita a Banguecoque, no
Hotel Oriental, em 1923. Gostou, repetiu por várias vezes e a sua passagem
ficou assinalada com uma suite: “Somerset Maugham”
No Royal Orchid, há uns anos, foi preso um tal Faria,
brasileiro, membro do executivo do Presidente Color que foragido e acossado pela
polícia internacional o Faria, incauto, foi meter-se na “boca do lobo”, com
uma comitiva de uns 10 assessores e a esposa a ocuparam suites de luxo, nas
alturas, do hotel. As tripulações da companhia aérea nacional brasileira,
VARIG, hospedavam-se no Orchid para se recompor depois de ter voado longas horas
e segundo por aqui se constou teriam sido as vozes denunciantes,do paradeiro do
“bom vivante” Faria. O informador do paraiso do brasileiro, teria dito à
polícia tailandesa que era um homem perigoso e armado. Pois na altura da sua
detenção o Faria não tinha, sequer, um corta unhas para atacar quem fosse. O
acusado do crime de peculato, estava, com o seu grupo a viver à larga e à
francesa; a gozar o cenário do Rio Chao Praiá. Na altura da detenção, o
Faria, saía,depois de uma lauta ceia, do Restaurante Captain Bush que deu o
nome à minha rua.
Uma pequena viela leva-me ao cais de desembarque. Da banda de
Tomburi chegam batelões com estudantes, operários, jovens e muita outra gente,
graúda e a arraia-miúda que vai apanhar o comboio á estação ferroviária,
centenária, Hula Lumpon que liga Banguecoque a todos pontos do Reino.

Cruzam-se
barcos expressos, de passageiros outros de grande porte aproximam-se dos hoteis,
da beira rio, para embarcarem turista, e oferecer-lhes uma viagem de sonho de
umas três horas até Ayuthaya, com preço acessivel a todas as bolsas. (A Tailândia
continua a ser a melhor destinação turística, em toda Àsia, para o visitante
estrangeiro).
Miro o grande o rio, na manhã nublada, sinto por ele uma
grande paixão. O Chao Praiá
é um pouco já da minha vida. Conheci as margens com casas de tábuas,em
cima de estacas de madeira de teca. Hoje nas suas margens há enormes prédios
de residências e hoteis de luxo. Turistas aos milhões visitam a Tailândia e o
Chao Praiá é uma via aquáticas, obrigatória e desejada a navegar.

Rio que recebe as cheias dos outros afluentes do norte e
nordeste e alagas a zona ribeirinha das duas margens de Banguecoque. Pessoas
habituadas à benção da àgua que aceita as inundações com o sorriso
caracteristico que identifica, o Reino das gentes tailandesas, o País dos
Sorriso.
A Rua Captain Bush Lane e o rio Chao Praiá são espaços de
poesia e pura harmonia.
José Martins
30.09.2002
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